Páginas

Mostrando postagens com marcador familia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador familia. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de agosto de 2018

9º Encontro Mundial das Famílias



Aconteceu, nesta semana, em Dublin, Irlanda, o 9º Encontro Mundial das Famílias.

No decorrer dessa semana tivemos as catequeses no período da manhã, e no sábado a festa, o momento especial em que o Papa se encontrou com as famílias e conversou com algumas delas que vieram da: Irlanda, Canadá, India, Iraque e Africa. O material dos encontros está disponível on-line  no Vatican News (www.news.va) e no site oficial do Evento: (www.worldmeeting2018.ie).
Para as catequeses os organizadores separaram por temas de acordo com os capítulos da Exortação Apostólica Amoris Laetitia:

-      A família e a fé que é dedicada a reflexão dos capítulos 01 ao 03 de Amoris Laetitia
-      A família e o amor, que refletirá os capítulos 04, 05 e 06;
-      As famílias e a esperança, que retomará os temas dos capítulos 07 até o 09 da exortação.

No sábado, 25,  dia do encontro com o Papa, foi um momento de festa. O Papa encontrou e conversou respondendo as perguntas de cinco famílias de diferentes países, se fez o momento de oração especial e um momento de musica com apresentação de artistas provenientes de todos os continentes. No domingo, houve a missa de encerramento com o Papa Francisco.

Que você possa se reunir com a sua família ai e refletir um pouco sobre o encontro, rezar e participar. Reze a
Oração oficial da família para o encontro mundial das Famílias, 2018

Deus, nosso Pai,
Somos irmãos e irmãs em Jesus, teu Filho,
Uma família, no Espírito do teu amor.
Abençoa-nos com a alegria do amor.
Faz-nos pacientes e compassivos Amáveis e generosos,
Acolhendo os que mais precisam.
Ajuda-nos a viver o teu perdão e a tua paz.
Protege todas as famílias com o cuidado do teu amor
Especialmente aqueles por quem rezamos agora: 

[Fazemos uma pausa para lembrar, pelo nome, membros da família e outras pessoas]

Aumenta a nossa fé,
Fortalece a nossa esperança,
Protege-nos com o teu amor,
Faz-nos sempre agradecidos pelo dom da vida que partilhamos.
Isto te pedimos, por Cristo nosso Senhor Amém.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Sínodo dos Bispos sobre a família


O Vaticano anunciou hoje, 2 de outubro, que 270 padres sinodais com direito a voto vão participar na 14ª assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos, dedicada às questões da família, que vai acontecer entre os dias 4 e 25 deste mês.

A lista inclui delegados eleitos por mais de 110 conferências episcopais e os chefes das Igrejas Orientais com direito próprio, além de 10 religiosos eleitos pela sua União de Superiores Maiores.

Os participantes com direito a voto são provenientes dos cinco continentes: 54 da África, 64 da América, 36 da Ásia, 107 da Europa e 9 da Oceânia.

Conta com 17 participantes de língua portuguesa, destes, seis brasileiros: D. Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, D. João Carlos Petrini, bispo de Camaçari; D. Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo de Mariana; cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo; cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida; D. Sérgio Eduardo Castriani, arcebispo de Manaus.

Entre os participantes estão também os 25 presidentes dos dicastérios da Cúria Romana, o secretário-geral e subsecretário do Sínodo dos Bispos, bem como 45 cardeais, bispos e padres selecionados pelo Papa, que aprovou ainda a escolha de 24 peritos (‘adiutores secretarii specialis’), de 51 ouvintes (‘auditores’), lote no qual se incluem 18 casais de vários países (entre eles o Iraque).

Entre os peritos está Padre Antônio Moser, especialista em Teologia Moral.

Ketty Abaroa de Rezende e Pedro Jussieu de Rezende, do Brasil, são um dos casais convidados. Outros dois participantes são o padre brasileiro Tiago Gurgel do Vale, assistente da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, e Walter Altmann, também do Brasil, em representação do Conselho Ecumênico das Igrejas.

Representantes de outras 14 Igrejas cristãs vão acompanhar o desenrolar da assembleia sinodal, que conta com a presença de 34 mulheres.

Os trabalhos vão ser divididos em três semanas, abordando cada uma das partes do instrumento de trabalho (desafios, vocação e missão da família) com intervenções gerais e 13 sessões de trabalhos de grupo (círculos menores) semanais, cujas conclusões vão ser publicadas.

Cada um dos 318 participantes com direito à palavra tem 3 minutos para intervir nas chamadas congregações gerais (18, no total).

No final destas três etapas, uma comissão vai elaborar um projeto de relatório final, que é depois votado pelos participantes em 24 de outubro.

Esse texto é depois apresentado ao Papa Francisco, a quem compete tomar as decisões relativas a estas propostas.

O Sínodo dos Bispos, convocado pelo Papa, pode ser definido em termos gerais como uma assembleia consultiva de representantes dos episcopados católicos de todo o mundo. Até hoje houve 13 assembleias gerais 

(Agência Ecclesia)


sábado, 24 de janeiro de 2015

Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações


Mensagem do Papa Francisco para o 
49º Dia Mundial das Comunicações Sociais - (17 de Maio de 2015)

«Comunicar a família: 
ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor»

O tema da família encontra-se no centro duma profunda reflexão eclesial e dum processo sinodal que prevê dois Sínodos, um extraordinário – acabado de celebrar – e outro ordinário, convocado para o próximo mês de Outubro. Neste contexto, considerei  oportuno que o tema do próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais tivesse como ponto de referência a família. Aliás, a família é o primeiro lugar onde aprendemos a comunicar. Voltar a este momento originário pode-nos ajudar quer a tornar mais autêntica e humana a comunicação, quer a ver a família dum novo ponto de vista.
Podemos deixar-nos inspirar pelo ícone evangélico da visita de Maria a Isabel (Lc 1, 39-56). «Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”» (vv. 41-42).
Este episódio mostra-nos, antes de mais nada, a comunicação como um diálogo que tece com a linguagem do corpo. Com efeito, a primeira resposta à saudação de Maria é dada pelo menino, que salta de alegria no ventre de Isabel. Exultar pela alegria do encontro é, em certo sentido, o arquétipo e o símbolo de qualquer outra comunicação, que aprendemos ainda antes de chegar ao mundo. O ventre que nos abriga é a primeira «escola» de comunicação, feita de escuta e contacto corporal, onde começamos a familiarizar-nos com o mundo exterior num ambiente protegido e ao som tranquilizador do pulsar do coração da mãe. Este encontro entre dois seres simultaneamente tão íntimos e ainda tão alheios um ao outro, um encontro cheio de promessas, é a nossa primeira experiência de comunicação. E é uma experiência que nos irmana a todos, pois cada um de nós nasceu de uma mãe.
Mesmo depois de termos chegado ao mundo, em certo sentido permanecemos num «ventre», que é a família. Um ventre feito de pessoas diferentes, interrelacionando-se: a família é «o espaço onde se aprende a conviver na diferença» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 66). Diferenças de géneros e de gerações, que comunicam, antes de mais nada, acolhendo-se mutuamente, porque existe um vínculo entre elas. E quanto mais amplo for o leque destas relações, tanto mais diversas são as idades e mais rico é o nosso ambiente de vida. O vínculo está na base da palavra, e esta, por sua vez, revigora o vínculo. Nós não inventamos as palavras: podemos usá-las, porque as recebemos. É em família que se aprende a falar na «língua materna», ou seja, a língua dos nossos antepassados (cf. 2 Mac 7, 21.27). Em família, apercebemo-nos de que outros nos precederam, nos colocaram em condições de poder existir e, por nossa vez, gerar vida e fazer algo de bom e belo. Podemos dar, porque recebemos; e este circuito virtuoso está no coração da capacidade da família de ser comunicada e de comunicar; e, mais em geral, é o paradigma de toda a comunicação.
A experiência do vínculo que nos «precede» faz com que a família seja também o contexto onde se transmite aquela forma fundamental de comunicação que é a oração. Muitas vezes, ao adormecerem os filhos recém-nascidos, a mãe e o pai entregam-nos a Deus, para que vele por eles; e, quando se tornam um pouco maiores, põem-se a recitar juntamente com eles orações simples, recordando carinhosamente outras pessoas: os avós, outros parentes, os doentes e atribulados, todos aqueles que mais precisam da ajuda de Deus. Assim a maioria de nós aprendeu, em família, a dimensão religiosa da comunicação, que, no cristianismo, é toda impregnada de amor, o amor de Deus que se dá a nós e que nós oferecemos aos outros.
Na família, é sobretudo a capacidade de se abraçar, apoiar, acompanhar, decifrar olhares e silêncios, rir e chorar juntos, entre pessoas que não se escolheram e todavia são tão importantes uma para a outra… é sobretudo esta capacidade que nos faz compreender o que é verdadeiramente a comunicação enquanto descoberta e construção de proximidade. Reduzir as distâncias, saindo mutuamente ao encontro e acolhendo-se, é motivo de gratidão e alegria: da saudação de Maria e do saltar de alegria do menino deriva a bênção de Isabel, seguindo-se-lhe o belíssimo cântico do Magnificat, no qual Maria louva o amoroso desígnio que Deus tem sobre Ela e o seu povo. De um «sim» pronunciado com fé, derivam consequências que se estendem muito para além de nós mesmos e se expandem no mundo. «Visitar» supõe abrir as portas, não encerrar-se no próprio apartamento, sair, ir ter com o outro. A própria família é viva, se respira abrindo-se para além de si mesma; e as famílias que assim procedem, podem comunicar a sua mensagem de vida e comunhão, podem dar conforto e esperança às famílias mais feridas, e fazer crescer a própria Igreja, que é uma família de famílias.
Mais do que em qualquer outro lugar, é na família que, vivendo juntos no dia-a-dia, se experimentam as limitações próprias e alheias, os pequenos e grandes problemas da coexistência e do pôr-se de acordo. Não existe a família perfeita, mas não é preciso ter medo da imperfeição, da fragilidade, nem mesmo dos conflitos; preciso é aprender a enfrentá-los de forma construtiva. Por isso, a família onde as pessoas, apesar das próprias limitações e pecados, se amam, torna-se uma escola de perdão. O perdão é uma dinâmica de comunicação: uma comunicação que definha e se quebra, mas, por meio do arrependimento expresso e acolhido, é possível reatá-la e fazê-la crescer. Uma criança que aprende, em família, a ouvir os outros, a falar de modo respeitoso, expressando o seu ponto de vista sem negar o dos outros, será um construtor de diálogo e reconciliação na sociedade.
Muito têm para nos ensinar, a propósito de limitações e comunicação, as famílias com filhos marcados por uma ou mais deficiências. A deficiência motora, sensorial ou intelectual sempre constitui uma tentação a fechar-se; mas pode tornar-se, graças ao amor dos pais, dos irmãos e doutras pessoas amigas, um estímulo para se abrir, compartilhar, comunicar de modo inclusivo; e pode ajudar a escola, a paróquia, as associações a tornarem-se mais acolhedoras para com todos, a não excluírem ninguém.
Além disso, num mundo onde frequentemente se amaldiçoa, insulta, semeia discórdia, polui com as murmurações o nosso ambiente humano, a família pode ser uma escola de comunicação feita de bênção. E isto, mesmo nos lugares onde parecem prevalecer como inevitáveis o ódio e a violência, quando as famílias estão separadas entre si por muros de pedras ou pelos muros mais impenetráveis do preconceito e do ressentimento, quando parece haver boas razões para dizer «agora basta»; na realidade, abençoar em vez de amaldiçoar, visitar em vez de repelir, acolher em vez de combater é a única forma de quebrar a espiral do mal, para testemunhar que o bem é sempre possível, para educar os filhos na fraternidade.
Os meios mais modernos de hoje, irrenunciáveis sobretudo para os mais jovens, tanto podem dificultar como ajudar a comunicação em família e entre as famílias. Podem-na dificultar, se se tornam uma forma de se subtrair à escuta, de se isolar apesar da presença física, de saturar todo o momento de silêncio e de espera, ignorando que «o silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras ricas de conteúdo» (BENTO XVI, Mensagem do XLVI Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24/1/2012); e podem-na favorecer, se ajudam a narrar e compartilhar, a permanecer em contacto com os de longe, a agradecer e pedir perdão, a tornar possível sem cessar o encontro. Descobrindo diariamente este centro vital que é o encontro, este «início vivo», saberemos orientar o nosso relacionamento com as tecnologias, em vez de nos deixarmos arrastar por elas. Também neste campo, os primeiros educadores são os pais. Mas não devem ser deixados sozinhos; a comunidade cristã é chamada a colocar-se ao seu lado, para que saibam ensinar os filhos a viver, no ambiente da comunicação, segundo os critérios da dignidade da pessoa humana e do bem comum.
Assim o desafio que hoje se nos apresenta, é aprender de novo a narrar, não nos limitando a produzir e consumir informação, embora esta seja a direção para a qual nos impelem os potentes e preciosos meios da comunicação contemporânea. A informação é importante, mas não é suficiente, porque muitas vezes simplifica, contrapõe as diferenças e as visões diversas, solicitando a tomar partido por uma ou pela outra, em vez de fornecer um olhar de conjunto.
No fim de contas, a própria família não é um objecto acerca do qual se comunicam opiniões nem um terreno onde se combatem batalhas ideológicas, mas um ambiente onde se aprende a comunicar na proximidade e um sujeito que comunica, uma «comunidade comunicadora». Uma comunidade que sabe acompanhar, festejar e frutificar. Neste sentido, é possível recuperar um olhar capaz de reconhecer que a família continua a ser um grande recurso, e não apenas um problema ou uma instituição em crise. Às vezes os meios de comunicação social tendem a apresentar a família como se fosse um modelo abstrato que se há-de aceitar ou rejeitar, defender ou atacar, em vez duma realidade concreta que se há-de viver; ou como se fosse uma ideologia de alguém contra outro, em vez de ser o lugar onde todos aprendemos o que significa comunicar no amor recebido e dado. Ao contrário, narrar significa compreender que as nossas vidas estão entrelaçadas numa trama unitária, que as vozes são múltiplas e cada uma é insubstituível.
A família mais bela, protagonista e não problema, é aquela que, partindo do testemunho, sabe comunicar a beleza e a riqueza do relacionamento entre o homem e a mulher, entre pais e filhos. Não lutemos para defender o passado, mas trabalhemos com paciência e confiança, em todos os ambientes onde diariamente nos encontramos, para construir o futuro.

Vaticano, 23 de Janeiro – Vigília da Festa de São Francisco de Sales – de 2015.

[Francisco PP.]


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sínodo dos Bispos: crise no casamento


Uma preparação para o matrimônio é fundamental 
No dia 7, no Sínodo dos bispos falou-se da "Importância de verificar que existam as necessárias disposições para o matrimônio: ser também bastante exigente no aceitar os casais que se apresentam para o matrimônio religioso, para o matrimônio na Igreja, e não ter por demais receio de ser exigente porque, evidentemente, se se casa muito facilmente, sem as premissas necessárias, é depois também compreensível que haja tantos casos de famílias que se esfacelam, de matrimônios que entram em crise."

Os cônjuges devem ser acompanhados constantemente em seu percurso de vida, mediante uma pastoral familiar intensa. Não se deve olhar somente para os remédios para a falência da união conjugal, mas também para as condições que a tornam válida e frutuosa. 

sábado, 10 de março de 2012

Frágil embarcação


Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
Frágil embarcação é uma metáfora apropriada para designar a travessia do ser humano e da humanidade em seu conjunto, desde o nascimento até a morte. Do berço ao túmulo, em meio a tempestades e turbulências, vamos cruzando onda após onda, sem saber ao certo o que nos espera no porto. As estrelas podem nos guiar, quem sabe algum farol ajude a acertar o rumo do horizonte, mas na maioria das vezes é às cegas que prosseguimos na navegação. A fragilidade da embarcação se revela em diversos níveis e instâncias.

A Pessoa
Em termos pessoais, quando concentramos o olhar sobre o próprio coração nos deparamos com um feixe de medos e dúvidas, de perguntas sem resposta e enfermidades sem remédio, de incoerências e contradições, de ruídos e paixões desordenadas. É o terreno das “alegrias e esperanças, das angústias e tristezas”, lembra a abertura da Gaudium et Spes, já que estamos celebrando o Jubileu de Ouro do Concílio Ecumênico Vaticano II. Perturbações e sonhos se mesclam, lutas resultam em fracassos ou vitórias, que vão se alternando ao longo da estrada.
O espírito navega em águas turvas, onde se vê impulsionado por desejos inconfessados e inconfessáveis, quando não simplesmente  ignorados e desconhecidos.  “Faço o que não quero e deixo de fazer o que me propus”, reconhece o apóstolo Paulo, que convive, além do mais, com o “espinho na carne”. “Coração de gente é terra selvagem”, diz com razão o poeta Guimarães Rosa. Nesse nível, o ser humano não passa de um ponto de interrogação itinerante, numa busca sem fim pelo sentido profundo de sua existência. Um caniço agitado, batido por ventos contrários, embora seja sempre “um caniço que pensa” (Voltaire).
Conclui-se sem muito esforço que o indivíduo é, sim, uma frágil embarcação. Na sua trajetória existencial, mares bravios, ignotos “e nunca dantes navegados” (Camões) o inquietam, ameaçam e atemorizam. O mundo não deixa de ser um imenso oceano de ondas, perigos e fantasmas que, desde a mais longínqua antiguidade, mantém o ser humano numa atitude de vigilância e defesa. É aqui que se faz necessário descobrir o oceano infinito do amor de Deus.
Quando colocamos nosso pequeno barquinho nas águas se sua infinita misericórdia, os temores e tremores se convertem em coragem e confiança. Pode o Mestre estar dormindo, como o relato do Evangelho, mas está no barco e não o deixará afundar. Mais ainda, tem o poder de aplacar o furor da tempestade (Lc 8,22-25). Aliás, o sono tranquilo do Filho em meio ao mar agitado não será, para nós, o sinal mais forte de que a embarcação encontra-se segura nas mãos do Pai! Que podem as forças do mal diante do Criador? Como reza o salmista, “só em Deus a minha alma tem repouso, porque dele é que me vem a salvação; só ele é meu rochedo e salvação, a fortaleza onde encontro segurança” (Sl 61). Ou ainda: “O Senhor é minha luz e salvação, de quem terei medo? O Senhor é a fortaleza de minha vida. Frente a quem tremerei?” (Sl 27). Edith Stein traduz semelhante entrega com uma simplicidade e transparência admiráveis: “sei que sou sustentada, e nisso tenho serenidade e segurança – não a segurança autoconsciente do homem que está no chão firme por força própria, mas a segurança doce e feliz de uma criança carregada por braços fortes – uma segurança que é, objetivamente falando, não menos racional. Ou seria ‘racional’ a criança viver permanentemente no temor de que sua mãe a possa deixar?” (Cfr. STEIN, Edith. Na força da cruz, coleção “clássicos da espiritualidade”, Ed. Cidade Nova, São Paulo, 2008).

A Família
Se deslocarmos o olhar da esfera pessoal para a esfera familiar, a tormenta em geral ganha uma magnitude mais perturbadora. Basta entrar no interior da casa de grande parte das famílias, ou de nosso próprio lar. Desemprego, doença, discórdia, gritos, violência – eis o oxigênio que se respira em não poucas delas. Nos dias de hoje, grande parte das famílias habitam não um lar, mas uma pensão. Cada um tem sua vida própria, aparecendo e desaparecendo para comer e dormir, numa prática individualista levado à potência extrema. Os apelos da mídia, especialmente de certos programas permissivos, ou de uma propaganda repetitiva e estridente, são furacões que rugem furiosamente em nossas portas e janelas. E nem adianta fechar portas e janelas!
Os apelos do marketing e da publicidade chegam pela TV, pelo computador, pelo celular e por toda essa parafernália da tecnologia de ponta. Nada contra as inovações tecnológicas. O mal é que os meios que foram inventados para aproximar as pessoas através da comunicação, acabam por separá-las. Multiplicam-se os laços virtuais e à distância em detrimento das relações primárias, familiares e de proximidade, cara a cara, olho no olho. Na concepção de Zygmunt Baumann, as relações sólidas, construídas lenta e laboriosamente, vão se derretendo. A “sociedade líquida”,  com seus laços superficiais e descartáveis, toma o lugar dos contratos duradouros.
Isto para sequer falar das famílias devastadas pelo álcool, pelas drogas e por uma violência contínua. Aí as palavras se convertem em flechas que ferem e matam, enquanto o próprio silêncio não passa de um mutismo. Este é desértico, solitário, marcado pelo constrangimento, onde vigora a recusa da comunicação, ao passo que o verdadeiro silêncio é povoado, sereno e repousante. O mutismo é um monólogo que destila veneno e reprimida agressividade, cria abismos incomunicáveis; o silêncio, ao contrário, se reveste de profunda alegria, permitindo um diálogo mudo mas fértil e fecundo como a água da fonte.
Igual violência, que também destrói e desestrutura a convivência familiar, é o consumismo. Nunca houve tanto acesso aos utensílios de bem-estar e, ao mesmo tempo, nunca este foi tão raro. Pois as coisas do cotidiano, quando elevadas à condição de ídolos, murcham e matam o calor humano. De que adiantam dormitórios requintados de conforto, se lhes falta a intimidade do amor? De que servem salas ultramodernas e sofisticadas se nelas as visitas se sentem estranhas? De que adiantam cozinhas equipadas com o que há de mais avançado tecnologicamente, se o tempero do carinho não for a raiz e o fundamento da mesa, da partilha do pão e da vida? De que adiantam computadores, televisores e carros de última geração, se eles se interpõem entre os próprios familiares como objetos de adoração, descartando a possibilidade de uma convivência sadia e sólida?
Também no caso da família, a embarcação se revela muito frágil. Algumas à beira do abismo, ou, o que é pior, da indiferença. Nas águas turbulentas do mundo moderno e pós-moderno, a dupla de pilotos – pai e mãe – dificilmente logra manter firme o leme entre as mãos. Quantas casas navegam à deriva das ideias e ideologias mais obscuras e nocivas! Quantos desencontros dentro de um ambiente que deveria ser marcado pelo encontro! Novamente aqui, as ondas tempestuosas ameaçam mergulhar a casa no fundo do mar. A fragilidade do lar só encontrará verdadeira calmaria quando orientar seu barquinho para o lago cheio de luz e repousante do amor divino. Ali, no aconchego da fé e da esperança, a tormenta se relativiza e se reduz a proporções administráveis. Não, a tormenta não desaparecerá. A oração, a meditação e a contemplação não modificam nossos problemas pessoais ou familiares. Modificam, isso sim, nossa atitude diante deles. O medo e o desconforto são substituídos pela certeza de que Deus é o primeiro capitão do barco. O leme pode estar em nossas mãos, mas é Ele que ilumina e conduz pelo caminho da salvação.

A Sociedade
Mas as coisas se tornam bem mais complexas quando o mesmo olhar que percorreu o âmbito individual e familiar atinge a esfera da economia, da política, da cultura e da sociedade em seu conjunto. Neste nível, as ondas e as tormentas se tornam incomparavelmente mais ameaçadoras. Na voracidade com que a economia de mercado se globaliza e atinge todos os povos e nações, o próprio Planeta Terra se converte numa frágil embarcação. Catástrofes de ordem gigantesca, naturais e/ou provocadas pela ação do modelo político-econômico vigente, ameaçam submergi-lo no caos primitivo. O ser humano, particularmente a partir da revolução industrial, informática e tecnológica, desencadeou uma máquina de produzir/consumir que hoje espaça de todo controle. Países inteiros e pessoas são atropelados por uma vertiginosa avalanche de novidades, modismos e objetos. O globo terrestre não suporta semelhante ritmo de exploração de seus recursos naturais. Devastação, desertificação, poluição do ar e das águas, aquecimento global – são algumas das expressões que denotam a grande enfermidade que debilita o planeta. A vida em todas as suas formas – a biodiversidade – está em jogo. Cada espécie em extinção, fauna ou flora, diminui progressivamente a qualidade de vida sobre a face da terra.
Na esfera socioeconômica e político-cultural, as coisas não são diferentes. Os desequilíbrios e assimetrias entre regiões, países e grupos constituem um verdadeiro terremoto estrutural, seguido de um tsunami de ondas humanas que se deslocam em todas as direções. Ondas visíveis que, simultaneamente, escondem e revelam transformações obscuras nas correntes subterrâneas. Povos, línguas, bandeiras, moedas e costumes se misturam e se confundem por todos os lados. Os deslocamentos humanos de massa, em princípio, são oportunidades que se abrem a pessoas, famílias e grupos inteiros. Também podem engendrar novos valores, na medida em que entrelaçam expressões culturais e se enriquecem mutuamente. Muitos, no entanto, são marcados pela violência e pela fuga, gerando massas e massas de refugiados em permanente diáspora. Errantes que, ao mesmo tempo, figuram como termômetros das mudanças em curso e profetas de uma nova civilização: justa e fraterna, solidária e sustentável.
São variadas e de variada força as ondas que se batem contra a convivência pacífica da humanidade. Que o digam as tensões e conflitos, guerras frias ou quentes, genocídios, neocolonialismo, desigualdades sociais, holocaustos e violência de todo gênero. O resultado é o desenraizamento de muitas pessoas, famílias e povos, migrantes em itinerância, onde a fome e a sede, a dor e a solidão costumam ser as únicas companheiras. Quatro irmãs siamesas que não podem esperar e exigem uma ação imediata de governos, entidades, igrejas, organizações não governamentais, cientistas, movimentos sociais...
Nesta imensa e ao mesmo tempo frágil embarcação que é o Planeta Terra, vale retornar novamente à espiritualidade de Edith Stein. Mulher que soube unir o próprio sofrimento e morte no campo de concentração nazista Auschwistz à cruz de Cristo. Filósofa e mística, judia de nascimento e cristã por conversão, insistia que “a religião é raiz e fundamento de toda vida”. À pergunta de “como se pode começar a viver nas mãos do Senhor”, respondia com absoluta convicção: “Fica tranquilamente na igreja todo o tempo de que necessitas para encontrar serenidade e paz. Isso faz um bem enorme não somente a ti, mas também ao trabalho e a todas as pessoas com quem tens de lidar”. Com a alma serena apesar da consciência do que a esperava, concluía: “minha vida recomeça a cada manhã e termina a cada noite”.
Em tempos de gigantescas tempestades para o povo judeu, Edith Stein foi capaz de colocar sua frágil embarcação, como também a frágil embarcação de toda a vida humana, no infinito oceano de amor que é a misericórdia de Deus. Digamo-lo com suas próprias palavras, transformando-as no ponto final desta reflexão:  “existe uma vocação ao sofrimento de Cristo e, por meio deste, uma vocação a colaborar com sua obra de redenção. Quando estamos unidos com o Senhor, somos membros do Corpo Místico de Cristo: Cristo continua vivendo em seus membros e continua sofrendo neles. Esse sofrimento, suportado em união com o Senhor, é o sofrimento Dele aplicado na grande obra redentora e que, nesta, se torna fecunda. Trata-se de um pensamento fundamental de toda a vida religiosa” (idem, ibidem).

Boas vindas!

Você é o visitante!