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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Papa Francisco fala sobre a fome


Papa Francisco: “O excesso de informação de que dispomos torna-nos imunes às tragédias dos outros”


Dia 13 de junho o Papa Francisco visitou por duas horas a Sede do Programa Mundial Alimentar (PMA), onde foi recebido pela Diretora Executiva Ertharin Cousin.

O pontífice se dirigiu aos presentes na Sessão Anual do Conselho Executivo do Programa Mundial Alimentar com o seguinte discurso:

***
Agradeço à Diretora Executiva, Senhora Ertharin Cousin, ter-me convidado a inaugurar a Sessão Anual 2016 do Conselho Executivo do Programa Alimentar Mundial, bem como as palavras de boas-vindas que me dirigiu. De igual modo saúdo a Embaixadora Stephanie Hochstetter Skinner-Klée, Presidente desta importante assembleia que reúne os Representantes dos vários governos chamados a tomar medidas concretas na luta contra a fome. E ao mesmo tempo que saúdo a todos vós aqui reunidos, agradeço tantos esforços e compromissos com uma causa que não pode deixar de nos interpelar: a luta contra a fome que sofrem muitos dos nossos irmãos.

Há pouco rezei diante do «Muro da Memória», testemunha do sacrifício feito pelos membros deste Organismo, dando a sua vida para que, mesmo no meio de complexas vicissitudes, não faltasse o pão aos famintos. Memória que devemos manter para continuar a lutar, com o mesmo vigor, pela meta tão ansiada da «fome zero». Aqueles nomes gravados à entrada desta Casa são um sinal eloquente de que o PAM, longe de ser uma estrutura anónima e formal, constitui um válido instrumento da comunidade internacional para empreender atividades sempre mais vigorosas e eficazes. A credibilidade duma instituição não se baseia nas suas declarações, mas nas ações realizadas pelos seus membros. Baseia-se nos seus testemunhos.

No mundo interconectado e híper-comunicativo em que vivemos, as distâncias geográficas parecem encurtar-se. Temos a possibilidade de contacto quase simultâneo com o que está a acontecer no outro lado do planeta. Graças às tecnologias da comunicação, aproximamo-nos de muitas situações dolorosas; e tais meios podem ajudar (e têm ajudado) a mobilizar para gestos de compaixão e solidariedade. Paradoxalmente, porém, esta aparente proximidade criada pela informação, vemo-la diluir-se de dia para dia. O excesso de informação de que dispomos gera gradualmente a habituação à miséria; ou seja, pouco a pouco tornamo-nos imunes às tragédias dos outros, considerando-as como qualquer coisa de «natural»; em nós gera-se – desculpa o neologismo – a «naturalização» da miséria. São tantas as imagens que nos invadem onde vemos o sofrimento, mas não o tocamos; ouvimos o pranto, mas não o consolamos; vemos a sede, mas não a saciamos. Assim, muitas vidas entram a fazer parte duma notícia que, em pouco tempo, acabará substituída por outra. E, enquanto mudam as notícias, o sofrimento, a fome e a sede não mudam, permanecem. Esta tendência – ou tentação – exige de nós um passo mais e, por sua vez, revela o papel fundamental que instituições como a vossa têm no cenário global. Hoje não podemos dar-nos por satisfeitos apenas com o facto de conhecer a situação de muitos dos nossos irmãos. As estatísticas não nos saciam. Não é suficiente elaborar longas reflexões ou submergir-nos em discussões infindáveis sobre as mesmas, repetindo continuamente argumentos já conhecidos por todos. É necessário «desnaturalizar» a miséria, deixando de considerá-la como um dado entre muitos outros da realidade. Por quê? Porque a miséria tem um rosto. Tem o rosto duma criança, tem o rosto duma família, tem o rosto de jovens e idosos. Tem o rosto da falta de oportunidades e de emprego de muitas pessoas, tem o rosto das migrações forçadas, das casas abandonadas ou destruídas. Não podemos «naturalizar» a fome de tantas pessoas; não nos é lícito afirmar que a sua situação é fruto dum destino cego contra o qual nada podemos fazer. Quando a miséria deixa de ter um rosto, podemos cair na tentação de começar a falar e discutir sobre «a fome», «a alimentação», «a violência», deixando de lado o sujeito concreto, real, que continua ainda hoje a bater às nossas portas. Quando faltam os rostos e as histórias, as vidas começam a transformar-se em números e assim, pouco a pouco, corremos o risco de burocratizar o sofrimento alheio. As burocracias ocupam-se de procedimentos; a compaixão – não a pena, mas a compaixão, o padecer com –, pelo contrário, põe-nos em campo em prol das pessoas. E, nisto, acho que temos muito trabalho a fazer. Juntamente com todas as ações já em curso, é necessário trabalhar por «desnaturalizar» e desburocratizar a miséria e a fome dos nossos irmãos. Isto exige de nós, em diversa escala e a diferentes níveis, uma intervenção em que apareça como objetivo dos nossos esforços a pessoa concreta que sofre e tem fome, mas que encerra também uma imensa riqueza de energias e potencialidades que devemos ajudar a concretizar.

1. «Desnaturalizar» a miséria

Quando estive na FAO, por ocasião da II Conferência Internacional sobre a Nutrição, disse que uma das graves incoerências que estávamos chamados a considerar é o facto de haver comida suficiente para todos mas «nem todos podem comer, enquanto o desperdício, o descarte, o consumo excessivo e o uso de alimentos para outros fins estão diante dos nossos olhos» (Discurso à Plenária da Conferência, 20/XI/2014).

Fique claro que a falta de comida não é uma coisa natural, não é um dado óbvio nem evidente. O facto de hoje, em pleno século XXI, muitas pessoas sofrerem deste flagelo deve-se a uma egoísta e má distribuição dos recursos, a uma «mercantilização» dos alimentos. A terra, maltratada e abusada, continua em muitas partes do mundo a dar-nos os seus frutos, continua a brindar-nos com o melhor de si mesma; os rostos famintos lembram-nos que desvirtuamos os fins da terra. Um dom, que tem finalidade universal, tornamo-lo um privilégio de poucos. Fizemos dos frutos da terra – dom para a humanidade – mercadoria de alguns, gerando assim exclusão. O consumismo – que permeia as nossas sociedades – induziu a habituar-nos ao supérfluo e ao desperdício diário de comida, a que por vezes já não somos capazes de dar o justo valor e que se situa para além de meros parâmetros económicos. Far-nos-á bem recordar que o alimento desperdiçado é como se fosse roubado à mesa do pobre, de quem tem fome. Esta realidade solicita-nos a refletir sobre o problema da perda e desperdício de alimentos, a fim de individuar vias e modalidades que, enfrentando seriamente tal problemática, sejam veículo de solidariedade e partilha com os mais necessitados [cf. Catequese de 5 de junho de 2013: Insegnamenti, I/1 (2013), 280].

2. Desburocratizar a fome

Devemos dizê-lo sinceramente! Há questões burocratizadas; há ações que estão «engarrafadas». A instabilidade mundial que vivemos é bem conhecida por todos. Nos tempos recentes, são as guerras e as ameaças de conflito o que predomina nos nossos interesses e debates. E assim, perante a diversa gama de conflitos existentes, parece que as armas tenham adquirido uma preponderância de tal modo fora do comum, que acantonaram totalmente outras maneiras de solucionar as questões em liça. Esta preferência já está de tal modo enraizada e assumida, que impede a distribuição de alimentos nas zonas de guerra, chegando mesmo à violação dos princípios e diretrizes mais basilares do direito internacional, cuja vigência remonta a muitos séculos atrás. Encontramo-nos assim perante um fenómeno estranho e paradoxal: enquanto as ajudas e os planos de desenvolvimento se veem obstaculizados por intrincadas e incompreensíveis decisões políticas, por tendenciosas visões ideológicas ou por insuperáveis barreiras alfandegárias, as armas não; não importa a sua origem, circulam com uma liberdade jactanciosa e quase absoluta em muitas partes do mundo. E assim nutrem-se as guerras, não as pessoas. Nalguns casos, usa-se a própria fome como arma de guerra. E as vítimas multiplicam-se, porque o número das pessoas que morrem de fome e depauperação soma-se ao dos combatentes que morrem no campo de batalha e a tantos civis mortos nos conflitos e nos atentados. Temos plena consciência disto, mas deixamos que a nossa consciência se anestesie tornando-se desta forma insensível, porventura recorrendo a palavras para se justificar (tais como: não se pode enfrentar tantas tragédias) que é a anestesia mais grave. Assim, a força transforma-se no nosso único modo de agir; e o poder, no objetivo perentório a alcançar. As populações mais frágeis não só padecem os conflitos bélicos, mas ainda veem travado todo o tipo de ajuda. Por isso, urge desburocratizar tudo quanto impeça que os planos de ajuda humanitária alcancem os seus objetivos. Nisto, vós tendes um papel fundamental porque precisamos de verdadeiros heróis capazes de abrir sendas, lançar pontes, simplificar procedimentos de modo que o acento seja posto no rosto de quem sofre. Para esta meta se devem orientar igualmente as iniciativas da comunidade internacional.

Não é questão de harmonizar interesses, que permanecem ancorados a visões nacionais centrípetas ou a egoísmos inconfessáveis. Trata-se, antes, de que os Estados membros incrementem decididamente a sua vontade real de cooperar para estes fins. Por esta razão, será muito importante que a vontade política de todos os países membros consinta e incremente decididamente a vontade efetiva de cooperar com o Programa Alimentar Mundial, para que este possa não só responder às urgências, mas também realizar projetos sólidos e consistentes e promover programas de desenvolvimento a longo prazo, segundo as solicitações de cada um dos governos e de acordo com as necessidades dos povos.

Com a sua trajetória e atividade, o Programa Alimentar Mundial demonstra que é possível coordenar conhecimentos científicos, decisões técnicas e ações práticas com os esforços destinados a mobilizar recursos e a distribuí-los equitativamente, isto é, respeitando as exigências de quem os recebe e a vontade do doador. Este método pode e deve garantir, nas áreas mais deprimidas e pobres, o adequado desenvolvimento das capacidades locais e eliminar gradualmente a dependência externa, consentindo ao mesmo tempo de reduzir a perda de alimentos, para que nada se desperdice. Numa palavra, o PAM é um válido exemplo de como se pode trabalhar em todo o mundo para erradicar a fome através duma melhor atribuição dos recursos humanos e materiais, fortalecendo a comunidade local. Neste sentido, encorajo-vos a prosseguir. Não vos deixeis vencer pelo cansaço (que é tanto), nem permitais que as dificuldades vos façam desistir. Acreditai naquilo que fazeis e continuai a fazê-lo com entusiasmo, que é o modo como pode germinar com força a semente da generosidade. Permiti-vos o luxo de sonhar. Precisamos de sonhadores que façam avançar estes projetos.

Fiel à sua missão, a Igreja Católica quer trabalhar em concertação com todas as iniciativas que visam a salvaguarda da dignidade das pessoas, especialmente de quantas estão feridas nos seus direitos. Para se tornar realidade esta prioridade urgente da «fome zero», asseguro-vos todo o nosso apoio e sustentáculo para favorecer todos os esforços empreendidos.

«Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber». Nestas palavras, temos uma das máximas do cristianismo; mas esta frase, independentemente de credos e convicções, poderia ser oferecida como regra de ouro para os nossos povos: tanto para um povo, como para a humanidade inteira. A humanidade joga o seu futuro na capacidade que tem de assumir a fome e a sede dos seus irmãos. Nesta capacidade de socorrer o faminto e o sedento, podemos medir o pulso da nossa humanidade. Por isso desejo que a luta para erradicar a fome e a sede dos nossos irmãos, e juntamente com os nossos irmãos, continue a interpelar-nos; que não nos deixe dormir e nos faça sonhar (as duas coisas juntas); que nos interpele para se buscar criativamente soluções de mudança e transformação.

E que Deus Todo-Poderoso sustente com a sua bênção o trabalho das vossas mãos. Obrigado!

Papa aos funcionários da sede do PMA: 

“Obrigado! Obrigado, porque vocês fazem um trabalho escondido, um trabalho nos bastidores, que não se vê, mas que torna possível que tudo vá adiante. Vocês são, como por exemplo, as bases de um prédio: sem as bases o edifício não fica de pé. Muitos projetos, muitas coisas podem ser feitas e se fazem no mundo da luta contra a fome, são feitas por muitas pessoas corajosas. Mas isso graças ao seu apoio, à sua ajuda escondida. Os seus nomes aparecem somente na lista dos funcionários e no final do mês nos contracheques, mas lá fora ninguém sabe como vocês se chamam. Porém, os seus nomes tornam possível esse grande trabalho, esse grande trabalho de luta contra a fome. Graças ao trabalho, a um pequeno ou grande sacrifício que vocês fazem muitas crianças podem comer. Muita fome é resolvida.”

Francisco disse que quando ouviu falar a diretora do Programa pensou: “Esta é uma mulher corajosa! Acredito que esta coragem todos vocês têm. A coragem de levar adiante um trabalho escondido e sustentar a coragem das pessoas que se veem, porque num corpo existem os pés, as mãos, e também o rosto. Vemos o rosto, mas os pés não, pois estão escondidos dentro dos sapatos. Vocês são os pés, as mãos que sustentam a coragem daqueles que vão adiante. Que sustentaram a coragem de seus mártires, digamos assim, de suas testemunhas. Nunca se esqueçam os nomes daqueles que estão escritos ali na entrada. Eles puderam fazer isso por causa da coragem que tinham, pela fé que tinham em seu trabalho, mas também porque eram auxiliados pelo trabalho de vocês”.

O Papa pediu aos funcionários do PMA para que rezassem por ele a fim de que ele também possa fazer algo contra a fome.

***

Segue, abaixo, o discurso preparado e entregue pelo Papa Francisco.

Estou contente de me encontrar com vocês num clima simples e familiar, reflexo do estilo que anima a sua entrega ao serviço de muitos irmãos nossos, que hoje encontram em vocês um dos rostos solidários da humanidade. Quero também lembrar os seus colegas que, espalhados pelo mundo, colaboram com o Programa Mundial Alimentar. A todos vocês, obrigado pela calorosa amizade e boas-vindas.

A Senhora Diretora Executiva explicou-me a importância do trabalho que realizais com grande competência e não poucos sacrifícios, de forma generosa, mesmo em situações duras e muitas vezes inseguras por causas naturais ou humanas. A amplitude e gravidade dos problemas enfrentados pelo PMA exigem que vocês prossigam colocando entusiasmo em tudo o que fazem, sempre prontos a servir. Para isso, conta muito a formação permanente, uma intuição perspicaz e sobretudo um grande sentido de compaixão, sem o qual tudo o mais careceria de força e razão de ser.

O PMA depositou em suas mãos uma grande missão. O bom êxito da mesma depende em grande parte de não se deixar vencer pela inércia, mas pôr em tudo capacidade de iniciativa, imaginação e profissionalismo, a fim de procurar cada dia vias novas e eficazes para vencer a desnutrição e a fome que sofrem muitos seres humanos em várias partes do mundo. São eles que nos pedem para lhes prestarmos a nossa atenção. Por isso, é importante que vocês não se deixem sufocar pelos dossiês e consigam descobrir que, por trás de cada folha de papel, existe uma história particular, muitas vezes dolorosa e delicada. O segredo é ver, por trás de cada expediente, um rosto humano que pede ajuda. Ouvir o grito do pobre lhes permitirá a não se fechar em formulários frios. Tudo é pouco para derrotar um fenômeno assim terrível como a fome.

Esta é uma das maiores ameaças à paz e a uma convivência humana serena. Uma ameaça que não podemos nos contentar apenas em denunciá-la ou estudá-la; é preciso enfrentá-la com decisão e resolvê-la urgentemente. Cada um de nós, segundo a respectiva responsabilidade, deve agir na medida das próprias possibilidades a fim de se alcançar uma solução definitiva a esta miséria humana que degrada e corrói a existência de um número enorme de nossos irmãos e irmãs. E, na hora de ajudar aqueles que cruelmente a padecem, ninguém é demais nem pode limitar-se a apresentar uma desculpa, pensando que é um problema que o ultrapassa ou não lhe diz respeito.

O desenvolvimento humano, social, técnico e econômico é o caminho obrigatório para garantir que cada pessoa, família, comunidade ou povo possa enfrentar as próprias necessidades. Isto nos diz que devemos trabalhar, não por uma ideia abstrata nem por uma defesa teórica da dignidade, mas por tutelar a vida concreta de cada ser humano. Nas áreas mais pobres e deprimidas, isso significa dispor de comida em caso de emergências, mas também possibilitar o acesso a meios e instrumentos técnicos, a postos de trabalho, ao microcrédito, fazendo com que a população local reforce a sua capacidade de resposta às crises que possam improvisadamente surgir.

Quando digo isto, não me refiro apenas às questões materiais. Trata-se, primeiramente, de um compromisso moral que permita olhar com responsabilidade para a pessoa que está ao meu lado, bem como para o objetivo geral de todo o Programa. Vocês são chamados a sustentar e defender este compromisso através de um serviço que poderia, mas só à primeira vista, parecer puramente técnico. Ao contrário, o que realizam são ações que precisam de uma grande força moral a fim de contribuir para a edificação do bem comum em cada país e em toda a comunidade internacional.

Diante de tantos desafios, perante os perigos e problemas que surgem continuamente, se tem a impressão de que o futuro da humanidade consistirá apenas em dar resposta a provas e riscos cada vez mais interligados e difíceis de prever tanto na sua amplitude quanto na sua complexidade. Vocês sabem disso por experiência própria. Mas isto não nos deve desanimar. Animem-se e se ajudem mutuamente para que não deixem entrar em seus corações a tentação do desânimo ou da indiferença. Pelo contrário, acreditem firmemente que a ação diária de todos vós está a contribuir para transformar o nosso mundo num mundo com rosto humano, num espaço cujos pontos cardeais sejam a compaixão, a solidariedade, a ajuda mútua e a gratuidade. Quanto maior for a vossa generosidade, a vossa tenacidade, a vossa fé, tanto mais a cooperação multilateral poderá encontrar soluções adequadas para os problemas que muito nos preocupam, ampliar perspectivas parciais e interessadas e abrir novos caminhos à esperança, a um équo desenvolvimento humano, à sustentabilidade e à luta por conter as desigualdades econômicas injustas que tanto ferem os mais vulneráveis.

Sobre cada um de vocês, suas famílias e o trabalho que desempenham no PMA, invoco abundantes bênçãos divinas.

Peço-lhes para que rezem por mim, cada um no seu íntimo, ou pelo menos, quando pensarem em mim, que o façam de modo positivo. Preciso muito disso. Obrigado!

(Fonte: Rádio Vaticano)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Derrotar a fome no mundo - O que diz o papa?



 O problema da fome e como derrotá-la estiveram no centro do discurso que o Papa fez na manhã desta quinta-feira (11/06), ao receber cerca de 450 participantes da 39ª Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que acontece em Roma até o dia 13 de junho.

No seu discurso, o Papa Francisco iniciou saudando, de modo especial, o Presidente da FAO, Mamea Ropati, os representantes dos diversos Organismos da ONU presentes ao ato e sobretudo, o Diretor-Geral da FAO, José Graziano da Silva, reeleito para um novo mandato à frente da instituição no decorrer da Conferência.



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Neste sentido, perante a miséria de tantos nossos irmãos e irmãs é quase normal que o argumento da fome e do desenvolvimento agrícula se tenha tornado hoje um dos tantos problemas que afligem este tempo de crise em que vivemos. Vemos por toda a parte aumentar o número daqueles que com muita fadiga conseguem diariamente um pasto regular e são, observou o Santo Padre.

 <>. Devemos, pelo contrário, observou Francisco, responder ao imperativo segundo o qual o acesso à comida necessária é um direito de todos.

Por isso, salientou ainda Francisco, <

 “O acesso ao alimento necessário é um direito de todos e os direitos não permitem exclusões”, afirmou o Papa, recordando que o combate à fome não se faz somente através de estratégias e planejamentos, mas é ação e um imperativo que não se pode delegar a terceiros.

“Às vezes a sensação é de que a fome seja um argumento impopular, um problema irresolvível, que não encontra soluções no arco de um mandato legislativo ou presidencial e, portanto, não garante consensos. Falta vontade de assumir compromissos vinculantes”, advertiu o Papa, que criticou também a disparidade de situação entre o Sul e o Norte do mundo. No Sul, debate-se ainda sobre a quantidade de alimentos, enquanto o Norte preocupa-se com a qualidade.


Desperdício

O Papa declara-se preocupado com as estatísticas sobre o desperdício, pois um 1/3 dos alimentos produzidos acaba no lixo. Os produtos da terra têm um valor que poderíamos dizer “sagrado”, afirmou o Papa, porque é fruto do trabalho quotidiano de pessoas, famílias e comunidades de camponeses. “É preciso então tentar assumir com mais decisão o esforço para modificar os estilos de vida. A sobriedade não se opõe ao desenvolvimento, pelo contrário, é evidente que se tornou a sua condição.”

Outro motivo de preocupação para Francisco são as mudanças climáticas, que levam ao deslocamento forçado de populações e a tantos dramas humanitários por falta de recursos. Um desses recursos é a água, que já se tornou causa de conflitos. “Não basta afirmar que existe um direito à água sem agir para tornar sustentável o consumo deste bem e eliminar todo desperdício.”

Empresas transnacionais

Além da água, o Papa apontou para a posse das terras cultiváveis, que estão sempre mais destinadas a empresas transnacionais. Para ele, esta política não só priva os agricultores de um bem essencial, mas ameaça diretamente a soberania dos países.

“São muitas as regiões em que os alimentos produzidos vão para o exterior e a população local se empobrece duplamente porque não tem nem alimentos nem terra. E que dizer das mulheres que em muitas regiões não podem possuir os terrenos que cultivam, com uma disparidade de direitos?” E sabemos que no mundo a produção mundial de alimentos é, em grande parte, obra de empresas familiares”, disse o Papa, pedindo para que a FAO reforce os projetos em favor das famílias.

Como derrotar a fome

Nestes esforços da FAO, Francisco garantiu o suporte da Igreja e de suas instituições e concluiu:

 “Devemos começar pela nosso quotidiano se quisermos mudar os estilos de vida, conscientes de que os nossos pequenos gestos podem garantir a sustentabilidade e o futuro da família humana. E depois continuemos a luta contra a fome sem segundos fins! As projeções da FAO dizem que até 2050, com nove bilhões de habitantes no planeta, a produção deve aumentar e até mesmo duplicar. Ao invés de nos impressionarmos diante dos dados, modifiquemos a nossa relação com os recursos naturais, com o uso dos terrenos, os consumos, sem cair na escravidão do consumismo, eliminando o desperdício: assim derrotaremos a fome."

( Fonte: Vatican Radio)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Papa Francisco discursou na FAO

O Papa Francisco deixou na manhã desta quinta-feira o Vaticano transferindo-se para a Sede da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação para participar da Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição. O Papa foi recebido pelo Diretor-Geral do organismo, o brasileiro José Graziano da Silva e pela Diretora-Geral da OMS, Organização Mundial da Saúde, Dra. Margaret Chan. No discurso pronunciado aos Representantes de governos de todas as partes do mundo, Francisco saudou a decisão de reunir nesta Conferência representantes de Estados, instituições internacionais, organizações da sociedade civil, do mundo da agricultura e do setor privado, com a finalidade de estudar juntos as formas de intervenção para garantir a nutrição, assim como as mudanças necessárias que devem ser acrescentadas às estratégias atuais.
A Igreja, - continuou o Papa - como vocês sabem, sempre procura estar atenta e solícita em relação a tudo o que se refere ao bem-estar espiritual e material das pessoas, primeiramente das que vivem marginalizadas e estão excluídas, para que sua segurança e dignidade sejam garantidas.
Francisco recordou que os destinos de cada nação estão mais do que nunca entrelaçados entre si, como os membros de uma mesma família, que dependem uns dos outros. Porém, - advertiu - vivemos numa época em que as relações entre as nações estão demasiadas danificadas pela suspeita recíproca, que às vezes se converte em formas de agressão bélica e econômica, mina a amizade entre irmãos e rechaça ou descarta quem já está excluído. E quem conhece bem esta realidade – afirmou - é quem carece do pão cotidiano e de um trabalho decente.
Esta é a situação do mundo, em que é preciso reconhecer os limites de visões baseadas na soberania de cada um dos Estados, entendida como absoluta, e nos interesses nacionais, condicionados frequentemente por poucos grupos de poder.
O Santo Padre citando a elaboração de novas normas e maiores compromissos para alimentar o mundo, disse esperar que, na formulação desses compromissos, os Estados se inspirem na convicção de que o direito à alimentação só será garantido se nos preocuparmos com o sujeito real, ou seja, com a pessoa que sofre os efeitos da fome e da desnutrição. E o Papa Francisco faz uma constatação:
“Hoje em dia se fala muito em direitos, esquecendo com frequência os deveres; talvez nos preocupemos muito pouco com os que passam fome. Além disso, dói constatar que a luta contra a fome e a desnutrição é dificultada pela «prioridade do mercado» e pela «preeminência da ganância», que reduziram os alimentos a uma mercadoria qualquer, sujeita à especulação, inclusive financeira. E enquanto se fala de novos direitos, o faminto está aí, na esquina da rua, e pede um documento de identidade, ser considerado em sua condição, receber uma alimentação de base saudável. Pede-nos dignidade, não esmola”.
Estes critérios – continuou o Papa - não podem permanecer no limbo da teoria. Pessoas e povos exigem que a justiça seja colocada em prática; não apenas a justiça legal, mas também a contributiva e a distributiva.
Em seguida o Papa citou o interesse pela produção, a disponibilidade de alimentos e o acesso a eles; citou ainda as mudanças climáticas, o comércio agrícola, que devem certamente inspirar regras e medidas técnicas, mas a primeira preocupação deve ser a própria pessoa, aquelas que carecem de alimento cotidiano e que deixaram de pensar na vida, nas relações familiares e sociais e lutam apenas pela sobrevivência.
Recordando a presença do Santo Papa João Paulo II, na inauguração da sala onde se realizou a Primeira Conferência sobre Nutrição, em 1992, citou o seu predecessor que alertou a comunidade internacional para o risco do “paradoxo da abundância”: existe comida para todos, mas nem todos podem comer, enquanto o desperdício, o descarte, o consumo excessivo e o uso de alimentos para outros fins estão sob nossos olhos. Infelizmente, este “paradoxo” continua sendo atual.
O Papa citou então dois desafios a serem superados no que diz respeito à fome. O primeiro: a manipulação de dados, estatísticas, as exigências de segurança nacional, a corrupção ou lamentos melancólicos sobre a crise econômica.
O segundo desafio que se deve enfrentar é a falta de solidariedade. Nossas sociedades - disse Francisco - se caracterizam por um crescente individualismo e pela fragmentação; isto termina privando os mais frágeis de uma vida digna e provocando revoltas contra as instituições. Quando falta a solidariedade em um país, todos ressentem.
Também os Estados, concebidos como uma comunidade de pessoas e de povos, se fossem exortados a atuar de comum acordo, estariam dispostos a ajudar-se uns aos outros, mediante princípios e normas que o direito internacional coloca à sua disposição.
O Papa indica como fonte inesgotável de inspiração, a lei natural, inscrita no coração humano, que fala uma linguagem que todos podem entender: amor, justiça, paz, elementos inseparáveis entre si. Como as pessoas, também os Estados e as instituições internacionais são chamadas a acolher e cultivar estes valores, no espírito de diálogo e escuta recíproca. Deste modo, o objetivo de nutrir a família humana se torna factível.
Francisco chama então a atenção para o fato que cada mulher, homem, criança, idoso, deve poder contar com estas garantias. E é dever de todo Estado, atento ao bem-estar de seus cidadãos, subscrevê-las sem reservas, e preocupar-se com a sua aplicação.
A Igreja Católica procura oferecer também neste campo sua contribuição, através de uma atenção constante à vida dos pobres em todos os lugares do planeta; nesta mesma linha se insere o envolvimento ativo da Santa Sé nas organizações internacionais e com seus múltiplos documentos e declarações.
O Papa pede então critérios para o desenvolvimento de um sistema internacional equânime. Critérios que, no plano ético, se baseiam em pilares como a verdade, a liberdade, a justiça e a solidaridade; ao mesmo tempo, no campo jurídico, estes mesmos critérios incluem a relação entre o direito à alimentação e o direito à vida e a uma existência digna, o direito a ser protegidos pela lei, nem sempre próxima à realidade de quem passa fome, e a obrigação moral de partilhar a riqueza econômica do mundo.
O Papa precisou mais uma vez que nenhuma forma de pressão política ou econômica na disponibilidade de alimentos pode ser aceitável. Mas, acima de tudo, nenhum sistema de discriminação, de fato ou de direito, vinculado à capacidade de acesso ao mercado dos alimentos, deve ser tomado como modelo das ações internacionais que se propõem a eliminar a fome.
O Papa concluiu fazendo um apelo à comunidade internacional para que saiba escutar o chamado desta Conferência e considere esse chamado uma expressão da comum consciência da humanidade: dar de comer aos famintos para salvar a vida no planeta. (SP)
(Fonte:  Vatican Radio)

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