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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Entrevista sobre o papa Francisco

Pedro Ribeiro de Oliveira
'A viagem do Papa Francisco ao Brasil representou sua recepção pela Igreja da América Latina e Caribe'. Entrevista especial com Pedro Ribeiro de Oliveira 
“Francisco pede a seus irmãos bispos que o ajudem a ser o bispo primaz de um colégio de pastores, e não um super-bispo romano com bispos auxiliares em cada diocese do mundo”, assinala o sociólogo.
Confira a entrevista.
“A viagem do Papa Francisco ao Brasil representou sua recepção pela Igreja da América Latina e Caribe. Falo de recepção não só como acolhida, mas no sentido forte de uma Igreja continental que diz ‘sim’ ao Papa e se coloca a seu lado para o projeto de reformas que lhe foi pedido pelo conclave antes de sua eleição”, diz Pedro Ribeiro de Oliveira à IHU On-Line. Na avaliação dele, os gestos de Francisco em sua visita ao Brasil demonstram que ele separa "sua pessoa do exercício de suas funções como Papa", e insiste "que o lugar dos cristãos – clérigos, religiosas, leigos e leigas – é no espaço público, e não dentro dos templos e sacristias". Entretanto, ressalta, "sinto falta de uma fala mais clara sobre o que deve a Igreja fazer no mundo, mas sabemos todos o que Concílio Ecumênico de 1962-65 diz: trata-se de anunciar e construir o Reino de Deus na história humana".
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Oliveira assinala que a preocupação do Papa com a valorização dos leigos na Igreja representa um “giro de 180 graus na pastoral”. E explica: “João Paulo II também procurou abrir portas, mas era para fazer o povo entrar na Igreja e colocar-se sob o cuidado de pastores... Francisco prefere uma Igreja machucada por andar na rua, do que incólume no interior do templo. Retomou, com muita ênfase, a expressão de Bento XVI inserida no Documento de Aparecida, que fala da Igreja como ‘advogada da Justiça e defensora dos pobres’. O importante é que o Papa não atribui essa missão aos leigos e leigas, mas a todo o Povo de Deus”. Para ele, “a partir desse ‘puxão de orelhas’, as Pastorais Sociais que atuam no espinhoso terreno social, político e econômico voltarão a receber tanto apoio dos bispos quanto receberam entre 1970 e o final dos anos 1990”. O sociólogo também comenta a posição do Papa em relação às Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, que se mantêm presente na América Latina e no Brasil. "O Papa Francisco parece ter escasso conhecimento dessa nova forma de ser Igreja, porque se referiu a elas como ‘espaços leigos’, desconhecendo que elas são espaços ‘eclesiais’ onde cabe todo o Povo de Deus, e não apenas leigos e leigas”.
Pedro Ribeiro de Oliveira é doutor em Sociologia pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica. Atualmente é professor do PPG em Ciências da Religião da PUC-Minas. Dentre suas obras, destacamos Fé e Política: fundamentos( Aparecida: Ideias & Letras, 2004), Reforçando a rede de uma Igreja missionária (São Paulo: Paulinas, 1997) e Religião e dominação de classe (Petrópolis: Vozes, 1985).

Confira a entrevista.

IHU OnLine - Que avaliação faz da primeira grande viagem do Papa fora da Europa, e quais os pontos altos da visita do Papa ao Brasil?
Pedro Ribeiro de Oliveira - A viagem do Papa Francisco ao Brasil representou sua recepção pela Igreja da América Latina e Caribe. Falo de recepção não só como acolhida, mas no sentido forte de uma Igreja continental que diz “sim“ ao Papa e se coloca a seu lado para o projeto de reformas que lhe foi pedido pelo conclave antes de sua eleição. Francisco sabe melhor do que nós que esse projeto encontrará muitos obstáculos e não será possível realizá-lo sem um amplo arco de apoios fora de Roma. Penso que o Papa ampliou bastante esse arco em seus contatos no Rio. Digo isso porque a emoção de D. Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, ao falar da importância do Papa durante esses dias indica algo mais do que sua participação na Jornada Mundial da Juventude - JMJ.

IHU On-Line - Quais foram os gestos mais significativos do Papa durante a Jornada Mundial da Juventude e o que eles apontam sobre o seu pontificado?
Pedro Ribeiro de Oliveira - Muitos gestos poderiam ser mencionados, mas destaco dois. O primeiro, que vem marcando a presença de Francisco como bispo de Roma é o fato de ele separar sua pessoa do exercício de suas funções como Papa. Até março deste ano a pessoa investida naquele ministério tornava-se uma espécie de ser extra-terreno, revestido de um enorme poder sagrado. A partir de Francisco, reza-se pelo Papa não porque esta é uma prescrição da liturgia, mas porque ele, humildemente, sempre pede nossa oração.
O segundo ponto, que também já se podia perceber desde o início de seu ministério em Roma, é a insistência de que o lugar dos cristãos – clérigos, religiosas, leigos e leigas – é no espaço público, e não dentro dos templos e sacristias. Sinto falta de uma fala mais clara sobre o que a deve a Igreja fazer no mundo, mas sabemos todos o que Concílio Ecumênico de 1962-65 diz: trata-se de anunciar e construir o Reino de Deus na história humana.

IHU On-Line - A partir dos discursos do Papa, como seu pontificado deve compreender as Comunidades Eclesiais de Base? Depois de alguns anos de recesso das CEBs, percebe a sinalização de uma retomada?
Pedro Ribeiro de Oliveira - E foram muitos os anos de “recesso” das CEBs nos espaços da cúria romana! Embora elas continuem vivas e atuantes no Brasil e na América Latina e Caribe – vem aí o 13º Encontro Intereclesial, no Ceará – não são poucas as autoridades eclesiásticas que prefeririam não precisar lidar com elas. O Papa Francisco parece ter escasso conhecimento dessa nova forma de ser Igreja, porque se referiu a elas como “espaços leigos”, desconhecendo que elas são espaços “eclesiais” onde cabe todo o Povo de Deus, e não apenas leigos e leigas. Apesar disso, revelou sua simpatia por elas ao abençoar, na comunidade popular de Varginha, uma capela típica de CEB.

IHU On-Line - Como relaciona o discurso de que não basta abrir as portas, mas se deve sair das portas da igreja, com a valorização dos leigos?
Pedro Ribeiro de Oliveira - Este é um giro de 180 graus na pastoral! João Paulo II também procurou abrir portas, mas era para fazer o povo entrar na Igreja e colocar-se sob o cuidado de pastores... Francisco prefere uma Igreja machucada por andar na rua, do que incólume no interior do templo. Retomou, com muita ênfase, a expressão de Bento XVI inserida no Documento de Aparecida, que fala da Igreja como “advogada da Justiça e defensora dos pobres”. O importante é que o Papa não atribui essa missão aos leigos e leigas, mas a todo o Povo de Deus. Acredito que a partir desse “puxão de orelhas” (pois o Papa pediu desculpas por falar tão abertamente com os bispos), as Pastorais Sociais que atuam no espinhoso terreno social, político e econômico voltarão a receber tanto apoio dos bispos quanto receberam entre 1970 e o final dos anos 1990.

IHU On-Line - Que avaliação faz do discurso que o papa fez para os Bispos do Brasil, no sábado e, posteriormente, para os Bispos do Celam? O que é possível entender por reforçar e reformar as estruturas da igreja?
Pedro Ribeiro de Oliveira - No momento não tenho condições de fazer a análise que esses discursos merecem, mas uma coisa é certa: Francisco pede a seus irmãos bispos que o ajudem a ser o bispo primaz de um colégio de pastores, e não um super-bispo romano com bispos auxiliares em cada diocese do mundo.

IHU On-Line - Qual é o significado do discurso do Papa no Teatro Municipal, no qual propõe recuperar a política como caridade?
Pedro Ribeiro de Oliveira - Também aqui falta-me uma análise melhor, mas com certeza esta é uma grande contribuição a todos os que, como diz Frei Betto, temos na Política “o campo preferencial para a vivência da Fé” e na Fé “o horizonte último do projeto político”.

IHU On-Line - Quais são e o que significam os silêncios do Papa, ou seja, os temas não abordados?
Pedro Ribeiro de Oliveira - Interpreto como estratégia para ampliar seu arco de alianças e não alvoroçar os adversários de seu projeto de reformas estruturais na cúria romana. É, como eu escrevi há pouco, a mesma estratégia de time de futebol que joga a primeira partida no campo do adversário: preocupado com o risco de tomar gols, prefere ceder o empate e deixar a decisão do campeonato para quando jogar em casa.

IHU On-Line - Francisco sinalizou que irá beatificar Dom Romero, assassinado em 1981. Qual é o significado dessa beatificação?
Pedro Ribeiro de Oliveira - Beatificação é processo burocrático que corre na cúria romana. Não sei se para a Igreja da América Latina e Caribe é importante essa canonização, pois São Romero da América, como o chama Pedro Casaldáliga, não precisa de reconhecimento canônico. Devo dizer, contudo, que senti falta de uma menção a ele durante a visita à comunidade popular de Varginha. Havia ali um grande painel com a figura do bispo-mártir e uma frase do Papa saudando-o – de improviso, ao estilo João Paulo II – ficaria para sempre gravada em nossa memória.

IHU On-Line - Por que e quais aspectos da entrevista que o Papa concedeu na viagem de volta a Roma foi significativa para o senhor?
Pedro Ribeiro de Oliveira - Nela fica evidente que a reforma da cúria visa suas estruturas, no sentido de descentralizar o poder romano e assim aumentar a colegialidade episcopal e o caráter sinodal da Igreja católica. Para minha agradável surpresa, Francisco referiu-se até mesmo à possibilidade de transformar o IOR, para que não seja mais um banco e sim um fundo. É muito bom que o Papa tenha como prioridade a reforma da cúria romana, porque isso só ele pode fazer (com o apoio dos bispos, é claro). Da missão da Igreja no mundo, nós mesmos, podemos cuidar desde as bases.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

ARTIGO: PEDRO, ADVOGADO E MISSIONÁRIO

Dom Edson Damian
bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM)







Pedro Fukuyei Yamaguchi Ferreira, 27 anos, filho de Paulo Teixeira Ferreira, deputado federal pelo PT-SP e da advogada Alice Yamaguchi Ferreira, chegou em São Gabriel da Cachoeira no dia 02 de março. Integrava o Projeto Missionário Sul 1 (dioceses de São Paulo) – Norte 1 (Amazonas e Roraima). Veio trabalhar como assessor jurídico da diocese e servir os Povos Indígenas que representam mais de 95% da população. Morava na casa do bispo, onde funcionava também seu escritório.
No dia 01 de junho, perto do meio dia, Pedro foi banhar-se no Rio Negro e foi arrastado pela correnteza. Seu corpo foi encontrado 48 horas depois, em Tapereira, a mais de 40 quilômetros de São Gabriel. Morte trágica, inesperada, prematura. Como entendê-la?
Com muitas lágrimas e emoção acompanhei a despedida dele, em São Paulo. No dia 04/06 a catedral da Sé ficou repleta de parentes, amigos, agentes da pastoral carcerária, desembargadores, promotores, juízes, advogados. No meio da multidão encontravam-se Eduardo Suplicy, Luiza Erundina, Michel Temer, Paulo Vanuchi, Francisco Witaker da Silva, Benedito Prezia, para citar apenas os que pude reconhecer.
Às 14h, com Dom Angélico Sândalo Bernardino e trinta presbíteros celebramos a Eucaristia. Mas sem o corpo presente. Uma avaria no avião que o transportava obrigou um pouso forçado em Nova Floresta, no Mato Grosso. O corpo chegou somente às 19h30 e foi velado na catedral. No dia 05/06, às 08h, o Cardeal Odilo Pedro Scherer presidiu a Missa de despedida e a encomendação. Às 10h, foi sepultado no jazigo da família, no cemitério da Vila Alpina. Enquanto cada um colocava um punhado de terra vermelha sobre o caixão, jovens advogados amigos entoavam o samba “Silêncio no Bexiga”, de Geraldo Filme:
“Silêncio, o sambista está dormindo.
Ele foi, mas foi sorrindo
A notícia chegou quando anoiteceu
Escola, eu peço o silêncio de um momento
O Bexiga está de luto
O apito de Pato n`água emudeceu”.
Quem era o Pedro? Recebeu o nome em homenagem a Dom Pedro Casaldáliga. Seu padrinho de Crisma foi Dom Angélico Bernardino. Seus pais são membros da Fraternidade Secular de Charles de Foucauld, militantes nos movimentos sociais. Formou-se em direito pela PUC de São Paulo. Estagiou em grandes escritórios de advocacia, mas encontrou-se realmente durante os três anos em que atuou como assessor jurídico da Pastoral Carcerária sob a coordenação do Pe Valdir João da Silveira. Foi neste serviço que nasceu o sonho de ser missionário na Amazônia. E o Pe Valdir, meu amigo, não podendo mais retê-lo, encaminhou-o para ajudar na diocese mais longínqua, mais isolada, mais indígena e mais pobre do Brasil, no noroeste do Amazonas.
Dom Bruno Gamberini, arcebispo de Campinas, representando os bispos de São Paulo, presidiu a missa de envio do Pedro. Estavam com ele o Pe João Paulo da Silva, que também veio a São Gabriel e a Prof. Maria Soares de Camargo que foi para Roraima. Na ocasião o Pedro disse: “Esta decisão é fruto de um antigo desejo de sentir na pele o que as pessoas mais simples e esquecidas sentem. E a partir desta partilha, colaborar para a transformação da realidade”.
Pedro era baixo. Os olhinhos japoneses, herança da mãe, o tornavam parecido com os Povos Indígenas. Como os índios das vinte e três etnias do Rio Negro se consideram parentes, Pedro já tinha sido adotado como parentes deles. Era alegre, comunicativo, bem humorado, corintiano, apaixonado por samba e futebol. Na camiseta que deixou sobre a pedra antes de entrar no rio está escrito: “Corintians, aqui tem um bando de loucos que nunca vai te abandonar!”. No dia em que chegou em São Gabriel, no fim da tarde, viu um jogo de futebol atrás da escola, ao lado da casa do bispo. Vestiu sua roupa de esporte e dirigiu-se para lá. Logo foi convidado para entrar no jogo. Como perceberam que jogava bem o contrataram para jogar no time da Vila Boa Esperança e participar de um torneio que iniciaria alguns dias depois. Camisa 10, goleador, não demorou para ser eleito capitão do time.
No dia seguinte acompanhei-o na visita à cadeia, onde sua vinda já era aguardada com grande expectativa. Passou a tarde conversando com cada presidiário. À noite relatou-me suas preocupações. Encontrou chefes de família retidos há muito tempo e o último júri popular havia acontecido há mais de cinco anos. Além disso, havia jovens envolvidos em pequenos delitos e uso de drogas. Não demorou para encontrar uma solução. Em comum acordo com a juíza e o Pe Jorge, administrador diocesano, sugeriu que cinco deles fossem contratados para trabalhar na reforma da cúria, iniciada há poucos dias. A proposta foi aceita. E dos cinco jovens, apenas um desistiu. Pedro foi à sua procura até encontrá-lo e motivá-lo para ingressar na Fazenda da Esperança. Perguntei ao Pedro o que tinha combinado com eles pelo preço da liberdade. Foram duas coisas. Não poderiam decepcionar o bispo que estava apostando neles, inclusive oferecendo um emprego. E se precisassem de algum dinheiro, não deveriam roubar nem assaltar. Era só pedir que ele daria um jeito.
Em pouco tempo tornou-se conhecido e merecedor da confiança de todos. Ele mesmo, em carta dirigida aos amigos, descreve o seu dia a dia: “Aqui em SGC a vida está bem. O fato de respirar um ar puro, tomar banho no rio, olhar a selva, jogar bola, morar do lado do trabalho, tem sido importante. Tenho trabalhado bastante. As pessoas têm me procurado, querem falar com o advogado da Diocese, ficam aliviadas quando sabem que eu não cobro pelo trabalho. Procuram por todas as demandas, cíveis, criminais, familiares, etc. Aqui faltam profissionais de todas as áreas! Tenho feito semanalmente visita ao presídio. Isso tem me possibilitado estender as visitas aos familiares e assim conheço a realidade da vida deles, um pouco da cultura e também a miséria que atinge a cidade, sobretudo aqueles que vêm das comunidades do interior. A Pastoral Carcerária tem me inserido também no contexto local. Talvez o principal problema daqui seja o álcool e o crescente uso de drogas pelos jovens - pasta base de cocaína que vem da Colômbia. Isso gera muita violência, algumas mortes, famílias destruídas. Com Dom Edson, visitamos a nova promotora de justiça e conversamos sobre justiça restaurativa. Ela se mostrou aberta a essa justiça. Eu quero trabalhar para mostrar que cadeia não funciona e que temos de achar outras soluções, sobretudo com os Povos Indígenas, que têm peculiaridades culturais próprias”.
Bastam estas palavras para perceber as lutas e os sonhos do Pedro. Ele ficava indignado quando ficava sabendo que advogados cobravam verdadeiras fortunas para defender pequenas causas. E as famílias pobres deviam desfazer-se da casa, do terreno, e outros bens indispensáveis para sobreviver.
Na hora de reestruturar a rádio comunitária Novo Milênio, Pedro foi eleito vice-presidente para trabalhar ao lado da Ir Claudina, assessora da Pastoral da Juventude. Com muita criatividade e audiência, apresentava um programa musical denominado “Samba e Cidadania”.
A mãe Alice, após a Missa na Catedral, ainda arrancou forças para dar este testemunho: “Quando soube que o Pedro tinha desaparecido no Rio Negro tive a sensação de que não resistiria diante de tamanha dor. Mas, na medida em que fui recebendo visitas, telefonemas, abraços de tantas pessoas amigas que não via há tempo, esta rede humana de solidariedade foi me reanimando e consolando. Percebi que meu filho era amado e tinha ajudado a muitas pessoas. Além disso, quem sou eu para me revoltar contra Deus? O Pedro estava onde desejou trabalhar como voluntário. Através de freqüentes telefonemas sempre me dizia que estava muito contente. Meu filho morreu feliz no meio do rio, da floresta, entre os Povos Indígenas. Apesar de sua breve existência, ele soube viver tão intensamente que tenho a impressão de que ele viveu 100 anos em 27”. Enquanto escutava estas comoventes palavras, pensei comigo: é verdade, no coração da Amazônia, o Pedro viveu 03 anos em 03 meses!
Passei o dia 06/06 com a família do Pedro em sua residência. Paulo e Alice, Caio, Ana, Manuela, Laís e Júlia. Entre lágrimas e risos, olhamos fotos, vimos imagens, escutamos canções que recordavam o Pedro, Pedrinho, Pedrão. Fizemos a memória da passagem meteórica do Pedro que soube amar e servir as pessoas e as grandes causas precursoras de “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21). Na hora do almoço, preparado em mutirão, fui convidado a ocupar o lugar em que o Pedro costumava se sentar. Chegou também o Fernando Haddad, ministro da educação. Começamos a refletir como levar a diante a luta do Pedro e que projetos concretos realizar em São Gabriel da Cachoeira. É a semente preciosa e fecunda do Pedro que, mal caída na terra, já começa a produzir frutos (Jo 12,24).
Pedro compreendeu e viveu a proposta radical de Jesus: “Quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvará” (Mc 8,35). Pedro testemunhou que a vida não é um capital para ser acumulado, mas um dom de Deus para ser partilhado. Vida a serviço da vida dos pobres, dos Povos Indígenas para pagar-lhes a imensa dívida social que lhes devemos pelos massacres e genocídios perpetrados desde o “descobrimento”.
Pedro andou pela vida, conduzido pelas bem-aventuranças dos “que têm fome e sede de justiça” (Mt, 5). Por isso já escutou de Jesus: “Vem bendito de meu Pai...Tudo o que fizeste a um destes mais pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizeste! Recebe em herança o Reino que meu Pai te preparou desde a criação do mundo” (Mt 25, 34 e 40).

Dom Edson Damian
Bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM)


Mensagem de Dom Pedro Casaldáliga enviada e à família do Pedro a mim

Querido Paulo e toda a família

Nestes dias de dor cresce também a comunhão e a esperança. Imagino o sofrimento de todos vocês. Eu também me senti muito afetado porque o Pedro querido carregava o meu nome e os meus sonhos. Agora, chegou ele à plena realização. A última grande decisão da sua vida acaba sendo uma espécie de sacramento de compromisso e de partilha.
Seguiremos ainda mais unidos. As muitas águas, como diria o Cântico dos Cânticos, não conseguiram afogar a procura generosa do Pedro. Ele virou um símbolo fraterno, pascal.
Considero-me mais um membro da família.
Recebam, querido Paulo e família, um abraço de plena comunhão no Crucificado Ressuscitado, vencedor de toda morte.

Pedro Casaldáliga


Boas vindas!

Você é o visitante!