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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Entrevista

O amor e o empenho de Paulo
pelos gálatas para
formar a pessoa em Cristo

Irmã Elisabete Corazza, acaba de apresentar sua monografia de graduação ao departamento de teologia, da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte (MG). Desenvolveu um tema muito interessante: “Cristologia na epístola aos Gálatas à luz de Gl 4,19: `Meus filhos, por quem sofro de novo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós´. Conversamos com Bete sobre o porquê do tema, o enfoque e as perspectivas para a evangelização, hoje.

Irmã Patrícia (IP) – Por que você escolheu este tema de Gálatas 4,19?
Ir. Elisabete - No início da Epístola aos Gálatas, Paulo se apresenta como o apóstolo de Jesus Cristo. Finaliza a carta desejando que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todas as pessoas. Do começo ao término do seu escrito, Paulo deixa transparecer um só desejo: “Meus filhos, por quem sofro de novo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (4,19). O seu ardor missionário está impregnado de gestação, envolto em tensões, angústias, lutas, ternura...A partir do viés hermenêutico, à luz de Gl 4,19, quis apresentar a cristologia da Epístola aos Gálatas. Paulo escreve à comunidade cristã nascente, que vive uma ameaça no processo de amadurecimento da fé após a chegada de alguns missionários judeo-cristãos, no desejo de que continue genuína a adesão à Cristo, conforme o Evangelho anunciado por ele.
IP – Quais são os passos que você seguiu em seu trabalho?
Ir. Elisabete - No início deste trabalho, abordei o primeiro anúncio de Jesus Cristo aos Gálatas, enfocando o contexto da comunidade; confirmando que o Evangelho anunciado por Paulo é revelação de Jesus Cristo e não influência humana. O apóstolo apresenta qual Cristo deve ser formado, ou seja, o crucificado e ressuscitado e a sua autenticidade da evangelização. Num segundo momento, como a comunidade cristã pode estar se desviando do Caminho a partir do anúncio de “outro evangelho”. Isto pode levar a comunidade a voltar novamente à escravidão. Faz-se necessário esclarecer questões ligadas a alguns judeus legalistas e a adesão dos gentios, no entrave entre Torah e lei; bem como reconhecer o caminho que leva simplesmente a agradar a si mesmo ou a assumir o compromisso com Cristo. Por fim, apresento a experiência de Paulo de gerar novamente a comunidade em Cristo, a partir da linda metáfora feminina em Gl 4,19, que se torna o viés de toda a releitura cristológica deste trabalho. Essa gestação só é possível quando se vive um contínuo processo de conversão para ser livre em Cristo, o que tem como conseqüência o comprometimento com o outro, no espírito de serviço e de solidariedade!

IP – Que perspectiva abre para nós o estudo de Gálatas 4,19?
Ir. Elisabete - Judeu nascido na diáspora, na cidade de Tarso, Paulo aprendeu a ser mais tolerante e aberto aos não-judeus e a seus valores culturais. Favoreceu um novo rosto ao cristianismo nascente, sobretudo no que toca à universalidade da salvação e no que se refere à liberdade cristã. A Carta aos Gálatas é um texto apologético, escrito num determinado tempo e dentro de um contexto. Porém, nos desafia a uma constante atualização das Escrituras, a vivermos de maneira inculturada, com espírito crítico, e a não nos prendermos ao que não é essencial no seguimento de Jesus Cristo.

IP – Paulo chama os opositores de sua pregação de “perturbadores”. E aos irmãos da comunidade, como os trata?
Ir. Elisabete - É, Paulo chama os opositores de sua pregação de “perturbadores” (1,7; 5,12; 6,13), pregadores de “outro evangelho” (1,6), de falsos irmãos (2,9). Mas também admoesta sua comunidade gerada no amor. Chama seus membros de insensatos (3,1.3), decaídos da graça (3,3), fonte de tristeza (5,15). Deseja que sua comunidade não seja ingênua, mas aja com espírito crítico perante a proposta dos missionários judeo-cristãos. Porém, como pai/mãe da comunidade, apesar de tantos conflitos e contexto tenso, os chama sete vezes de irmãos (1,11; 3,15; 4,12; 4,31; 5,11; 5,13; 6,1); e os assume, com amor incondicional, como filhos queridos (4,19).

IP – Qual é o fundamento da missão de Paulo?
Ir. Elisabete - O conhecimento de Paulo é fruto da revelação de Jesus Cristo, o Evangelho é de Jesus Cristo: “pois eu não recebi, nem aprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo” (1,12). Aqui está o centro da sua missão, a origem divina de seu Evangelho. O centro da revelação é Ele: o Evangelho, Jesus Cristo. Eis o fundamento da sua missão.

IP – Como se entende a transformação de perseguidor a apóstolo de Jesus Cristo, em Paulo?
Ir. Elisabete - Paulo foi gestado, pela graça de Deus, em Jesus Cristo. Nesta experiência inicia-se um itinerário pela fé no Filho de Deus, naquele que amou e se entregou a si mesmo por Paulo (cf. 2,20b). Experiência amorosa, desinstaladora, do Deus que toma a iniciativa gratuitamente. Seu encontro, na estrada de Damasco, passou por um processo mistagógico. Não aconteceu tudo de uma vez, mas algo que Paulo foi aprendendo, próprio do ser cristão. Transformou-o de tal forma que professou: “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (2,20a). Experiência vital de liberdade e compromisso, na qual também procurou formar a comunidade dos gálatas.

IP – Paulo faz uma distinção entre Torah e lei. Pode explicar?
Ir. Elisabete - Como um exímio fariseu, Paulo sabe muito bem distinguir o significado da Torah e da lei. A Torah tem a força da sabedoria de Deus, do ensinamento e ordem de Deus. Só neste sentido ela pode ser chamada de Lei. A Torah é proposta como caminho da felicidade. No pensamento paulino, ela corresponde ao Evangelho de Jesus. Jesus é a Torah encarnada do Pai. Por sua vez, a lei, tem força humana da imposição. Ela é uma cerca ou uma seta para não perdermos a direção do que “pode ou não pode”. É nesse sentido que Paulo vê a lei como “escravidão” (2,19;5,3). A lei é que determina o pecado. Mas, a Torah, orientação de Deus, gera filhos livres, responsáveis e tementes e, por isso, felizes (3,21;6,2).



IP – Como se explica o fato de Paulo falar diversas vezes de si mesmo?
Ir. Elisabete - Para o apóstolo, estão claras as motivações e as exigências da mensagem cristã. Todo o enfoque de sua vida e em seus escritos, não está voltado a si mesmo, mas a Jesus Cristo. Ele somente favorece, tenta tornar visível o invisível. Mesmo que em alguns momentos precise falar de si mesmo (1,15-23; 6,14-17), tem sempre em mira a credibilidade ao ensinamento sobre Jesus Cristo e para prevenir a justa autodefesa, em vista da continuidade da missão. Para Paulo, mensagem e mensageiro precisam estar unidos de modo indissolúvel. Não é possível falar, anunciar uma coisa e viver outra. Duplicidade de vida é intolerável para o nosso evangelizador. Paulo acha que seus opositores estão somente fazendo “boa figura” excluindo-se da cruz de Cristo (6,12.14). A cruz lançou Paulo nos braços do Deus da graça, que se revelou o dom gratuito da salvação. Aderindo, na fé, ao Crucificado, possibilita também se libertar da lógica de auto-exaltação orgulhosa. Ser circuncidado não é mais um privilégio; não ser circuncidado não é mais uma desvantagem. A cruz é a vida de Paulo, o exercício do seu ministério. Como também é a sua glória, sua fraqueza vivida na cruz, pois é sinal da sua fidelidade e autenticidade (cf. 6,14). Aliás, assumir o evangelho tem o seu preço: a cruz, a fraqueza e a renúncia aos privilégios.

IP– Se o Apóstolo é duro com os gálatas, chamando-os até de “insensatos”, de outro lado, não lhe parece que é terno, carinhoso?
Ir. Elisabete - Realmente, ele chega a usar uma metáfora feminina: “sofro de novo as dores de parto” (Gl 4,19). O apóstolo usa uma estratégia! Recorda os belos momentos passados com a comunidade, com uma linguagem de ternura e afeição, para tentar recriar o elo amoroso e de confiança, que havia antes de ali terem chegado os missionários. Gálatas 4,12-20 é conhecida como a perícope da ternura. Num primeiro momento, os participantes das Igrejas são chamados de “irmãos” (4,12-17) de Paulo. Logo no início (v. 12), percebemos o desejo de um encontro afetivo. O apóstolo pede à comunidade que seja como ele e interpela: “eu vos suplico”. Expressa o grito do irmão afetuoso, que reconhece que os gálatas em nada o ofenderam, mas muito o amaram. O evangelista lembra de passagens positivas, que retratam a maturidade dos gálatas na convivência comunitária: como sua doença que era repulsiva (v. 14), mas, em vez de desprezá-lo, as Igrejas o assumiram como anjo ou como se fosse o Cristo Jesus. Relembrando a experiência vivida, o afeto de Paulo por eles se torna mais intenso e profundo: de irmãos (v. 12) passa a chamá-los de “meus filhos” (v. 19): “Meus filhos, por quem eu sofro de novo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós”. O amor de Paulo pelos gálatas é como o amor de mãe que sofre para dar à luz. Aos coríntios ele dissera ser como um pai para eles (1Cor 4,15). Em relação aos tessalonicenses, também percebemos o aspecto materno do comportamento apostólico de Paulo (1Ts 2,7). Aqui ele vai muito além: o nosso evangelizador sofre para dar à luz a comunidade. É uma linguagem materna. Certamente, o ambiente feminino afetou Paulo de tal forma, que o faz usar uma metáfora exclusiva da situação da mulher. É o coração do apóstolo que está falando, a partir de sua experiência fortíssima de convivência com os gálatas. Ele sofre com a possibilidade de os gálatas se tornarem infiéis. Sua preocupação humana e apostólica leva-o à busca das ovelhas que estão debandando. Paulo está em agonia. A filha que está para nascer, a comunidade gálata, com quem ele convivera no tempo de sua doença, está correndo perigo. A ansiedade é muito grande porque a criança está se deformando. Ninguém quer que venha ao mundo uma criança com defeitos acentuados. A mãe (Paulo) está com a criança no útero, esperando que sua formação chegue ao auge (Cristo dá a forma à criança)! Alguém (missionários judeo-cristãos) começa a afetar a criança no seio materno, e isso pode provocar uma tragédia. Todavia, a mãe nunca cede. Esta é a marca do verdadeiro apóstolo, do autêntico pai/mãe: acompanha, ajuda, reanima, sofre, mas nunca perde a esperança! A situação é de angústia e de crise. Mas, se preciso for, muda até o “tom da voz” para que a “criança” aprenda a andar e a retomar o caminho! Porém, a ênfase (como acontece com toda a mãe que aguarda ansiosa, mas feliz, para ver o rostinho do seu filho ou filha) não está na dor pela dor, mas na alegria de gerar e ver nascer um novo ser, uma nova criatura. Por isso, vale a pena sofrer de novo as dores de parto!

IP – E a nossa situação de hoje, tem algo semelhante àquela da comunidade dos gálatas?
Ir. Elisabete - Olhando para a nossa realidade eclesial, também somos desafiados a questionar sobre em qual maneira acontece a evangelização em nossos dias. O Evangelho nos desinstala. É necessário que o apóstolo autêntico esteja vigilante quanto ao prestígio, aos aplausos. É preciso perceber e discernir o que nos afasta do verdadeiro serviço ao povo, na gestação do Reino de Deus. É urgente ter coragem de abrir mão da busca do poder, das pseudo-seguranças. A dinâmica do processo de formar a pessoa em Cristo exige olhar crítico, a fim de não ficarmos presos às tradições que violam a dignidade humana ou que não estão em consonância com o Evangelho. Ser cristão é colocar-se a caminho, ser eterno aprendiz. O itinerário do discípulo missionário consiste em assumir e permitir-se ser configurado a Cristo, numa experiência de ser gestado. É algo dinâmico, pois, ao mesmo tempo em que acontece comigo, também acontece com o outro. A vida é gerada em mim, e eu gero vida em outra pessoa. Sou filha/filho, mas também sou mãe/pai, num contínuo processo... até que Cristo se forme em nós!


Parabéns, Bete!

Sentimos com você a alegria deste exigente, mas belo caminho na pesquisa e na reflexão de uma expressão tão humana, "feminina" e de imensa ternura de nosso pai São Paulo; uma reflexão de conteúdo cristológico e evangelizador tão grande!

Agradecemos pela partilha!

Você pode escrever seu comentário aqui ou, melhor ainda, passar uma mensagem para Bete no seguinte endereço: elisabete.corazza@paulinas.com.br

Um comentário:

Ir. Patricia Silva, fsp disse...

Parabéns, Bete. Continue.
M.Aparecida

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