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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Encontro sobre São Paulo



Transcrevemos aqui palestra proferida por Irmã Ninfa Becker, fsp, no Colégio Pio Brasileiro, Roma, no dia 20 de novembro de 2008, e publicado no BRB – Boletim dos Religiosos Brasileiros, em Roma – no 241, dezembro 2008.


O que faremos hoje é apenas uma breve reflexão sobre o evento de Damasco, para conhecer, compreender e amar um pouco mais Paulo, com a graça do Espírito Santo.
Na abertura do Ano Paulino, na Basílica de São Paulo, no dia 28 de junho 2008, o Papa Bento XVI delineia com clareza o objetivo deste ano dedicado a São Paulo: “Estamos aqui reunidos não para refletir sobre uma historia passada, irrevogavelmente superada. Paulo quer falar conosco, hoje. Por isso quis proclamar este especial Ano Paulino, para escutar Paulo, para apreender dele, que é o nosso mestre, a “fé e a verdade”, nas quais estão enraizadas as razões da unidade entre os discípulos de Cristo.
Toda a Igreja está empenhada, neste Ano Paulino, para conhecer mais este grande apóstolo que é São Paulo. Alguém até chegou a exagerar dizendo que Paulo era o fundador do cristianismo.

Quem era Paulo? Quem é Paulo?
Ele mesmo se apresenta, no templo de Jerusalém, diante da multidão agitada que queria matá-lo: “Eu sou um judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas crescido nesta cidade (Jerusalém), formado na escola de Gamaliel nas mais rígidas normas das leis dos pais, cheio de zelo por Deus” (Atos 22,3). No final do seu caminho dirá de si: “Fui constituído mestre das gentes na fé e na verdade” (1Tm 1,11)
Paulo nunca afirmou ser cristão, ele não conhecia este termo.
Para este bimilenário do nascimento do Apostolo, o Papa acendeu uma “Chama Paulina” que permanecerá acesa durante todo o ano na Basílica. Para solenizar esta recorrência inaugurou também a “Porta Paulina”, com várias cenas da vida de Paulo, através da qual ele entrou no dia da abertura do Ano Paulino e por onde se entra para receber as indulgências que a Igreja nos concede para este Ano Paulino.
O ano dedicado ao Apostolo São Paulo, encontrou em toda a Igreja, em todas as partes do mundo grande adesão, entusiasmo e desejo de conhecer melhor este gigante de Cristo que foi Paulo apostolo. Em todas as partes do mundo estão-se multiplicando variadas iniciativas: publicações, livros, musica, vídeos, sitos internet, programas de rádio, entrevistas, programas na TV, celebrações Eucarísticas, da Palavra, teatros, conferencias, encontros, orações, peregrinações, aprofundamento de suas cartas etc. que seguramente fornecerão um precioso contributo para que o povo de Deus possa entrar em uma dinâmica de maior conhecimento, amor, confiança e assimilação do destemido Apóstolo e missionário, que fará sentir sua presença com uma grande profusão de graças e de bênçãos para uma vida humana e crista segundo o projeto de Deus. A Igreja, o mundo sem Paulo seria muito mais pobre.

E’ maravilhoso constatar a participação e o entusiasmo não só dos católicos, mas também de outras igrejas cristãs, nas quais a proposta do Papa teve uma grande ressonância. Significa que Paulo é vivo hoje: com a força da sua Palavra, a santidade da sua vida e a audácia da sua ação missionária que pode ‘acordar’ a nossa geração e a sociedade de hoje caracterizada pela indiferença, o relativismo, o materialismo e fazer voltar aos valores perenes da fé, da transcendência e do amor.
O símbolo da luz è sempre muito forte e significativo e o Papa Bento XVI na sua recente viagem a Lourdes (13 setembro 2008), no discurso pronunciado na Praça do Rosário, na conclusão da procissão das luzes, dizia:
“Agora que cai a noite Jesus nos diz: “Conservai as vossas lâmpadas acesas” (cfr Lc 12,35):
A lâmpada da fé, a lâmpada da oração, a lâmpada da esperança e do amor! Este caminhar na noite, levando a luz, fala com força ao nosso intimo, toca o nosso coração e fala muito mais do que qualquer outra palavra. Este gesto resume por si só a nossa condição de cristãos a caminho: temos necessidade de luz e, ao mesmo tempo, somos chamados a tornar-nos luz”.
Podemos afirmar com toda a certeza que Paulo foi e é uma “lâmpada acesa” que continua a iluminar o caminho dos cristãos e da humanidade rumo ao Cristo, continua a apontar sempre a meta: Cristo Jesus, o Ressuscitado! especialmente dentro desta realidade tão confusa, priva de valores na qual vivemos hoje. Paulo é um comunicador, um farol que projeta a da Palavra iluminadora.
A vida e o ensinamento de São Paulo plasmam a personalidade espiritual e apostólica de toda pessoa consagrada, traçam um itinerário de vida marcado pelos sentimentos de Cristo: o viver em Cristo com ação de graças, o continuo lançar-se para frente, para a meta, o sentido da Igreja e da comunidade, a visão cristã do mondo, a abertura universal para todas as nações e povos, na constante procura de comunhão com todas as forças vivas da Igreja.
Paulo é o homem da ‘praça’, isto é, que comunica Cristo nas metrópoles, nas vias movimentadas das cidades, das culturas, do tempo; é o anunciador aberto, universal, o evangelizador de todo o mundo conhecido: grita, insiste, proclama, anuncia o Evangelho, Cristo, a tempo e contratempo, até o fim de sua vida, até derramar o seu sangue por Ele. O Evangelho para Paulo é tudo, é como que enamorado do Evangelho, como se o Evangelho fosse a sua ‘esposa’.

O que aconteceu no caminho de Damasco?

Paulo estava com cerca 28 anos de idade. Tinha poder e prestigio. Em nome do Sinédrio liderava a perseguição contra os cristãos. Pediu licença para persegui-los até em Damasco na Síria (At 9,1-2; 26, 9-12). Sete dias de viagem! Enquanto caminhavam para lá, de repente aparece uma forte luz. Paulo cai e ouve uma voz: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9,4).

Paulo estava perseguindo a comunidade dos cristãos. Mas Jesus pergunta: “Por que me persegues?” Jesus se identifica com a comunidade, com a Igreja! Colocando-se ao lado do perseguido, desaprova o perseguidor. A queda na estrada de Damasco foi o divisor das águas. A vida de Paulo divide-se em antes e depois do encontro com o Ressuscitado. A entrada de Jesus na vida de Paulo não foi pacifica, mas sim uma tempestade violenta. Paulo, ao longo da estrada de Damasco, encontrou Alguém que não esperava, mas que o estava esperando há muito tempo.

A Bíblia usa algumas imagens para descrever o que aconteceu: duas de Lucas para sugerir a semelhança entre Paulo e os profetas, e duas do próprio Paulo: queda, cegueira, aborto, apanhado, mas todas elas indicam algo de essencial: o encontro com Cristo Ressuscitado mudou a vida de Paulo!

Paulo é pós-pascal, não fala e não cita frases de Jesus histórico, mas o seu conteúdo e ensinamento sim. O Cristo de Paulo é: morto e ressuscitado, portanto vivo!

Ø Queda
Deus não pediu licença: entrou sem mais, e o derrubou (At 9,4; 22,7; 26,14). Como Jeremias, Paulo podia dizer: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir. Dominaste-me e me derrubaste” (Jer 20,7). Caído por terra, ele se entrega. O caçador foi caçado, vencido pela caça! E’ desta imagem da queda que vem a expressão “cair do cavalo” . Não há cavalo na historia da conversão de Paulo. Só há queda. Queda muito mais violenta do que cair de um cavalo! (De onde caiu Paulo? Onde estava antes para cair por terra?)
Ø Cego
Uma luz o envolveu (At 9,3). Como Ezequiel, Paulo caiu por terra ao ver a luz da glória de Javé) Ez 1,27-28). Luz tão forte que ele ficou cego. E cego ficou, três dias, sem comer nem beber (At 9, 8-9). São os três dias de escuridão e de morte que antecedem à ressurreição. Inverteram-se os papéis: o líder teve que ser conduzido pela mãos dos seus liderados (At 9,8). Paulo só começou a enxergar quando Ananias impôs as mãos e disse: “Saulo, meu irmão!” (At 9,18). Ressuscitou no exato momento em que foi acolhido na comunidade como irmão! Morreu o perseguidor, ressuscitou o profeta!

Ø Aborto
A imagem é do próprio Paulo que diz: “Por ultimo, Jesus apareceu a mim que sou um aborto” (1Cor 15,8). O seu nascimento para Cristo não foi normal! Deus o fez nascer de maneira forçada. Paulo foi arrancado de dentro do seu mundo, como se arranca uma criança do seio da mãe por meio de uma operação.
A sua fé é o ter sido tocado pelo amor de Jesus Cristo, um amor que o confunde até o intimo e o transforma. A sua fé não è uma teoria, mas é o impacto do amor de Deus no seu coração. E esta mesma fé é amor por Jesus Cristo. E sua missão é comunicar a todos esta sua experiência do amor de Cristo.
Paulo intui esta novidade, a prevê mas ainda não a sente totalmente sua, assimilada. Compreende que o Senhor pede uma mudança de vida, mas tem medo que Deus o conduza para onde ele não quer ir... Paulo, depois do primeiro entusiasmo compreende que deve retirar-se para o deserto, assimilar a experiência, preparar-se interiormente para a missão.

A fatiga do caminho

Não que eu já tenha coquistado o prêmio ou que já tenha chegado à perfeição; apenas continuo correndo para conquistá-lo, porque eu também fui conquistado por Jesus Cristo. Irmãos, não acho que eu já tenha alcançado o prêmio, mas uma coisa eu faço: esqueço-me do que fica para trás e avanço para o que está na frente. Lanço-me em direção à meta, em vista do prêmio do alto, que Deus nos chama a receber em Jesus Cristo." (Fl 3,12-14).
Foi Barnabé que fez soar a hora de Deus para Paulo, quando o convida para ir à comunidade de Antioquia, onde havia uma fervorosa comunidade cristã. E’ dali que parte .

Em qual direção o Senhor conduz Paulo?

a) Antes de tudo o Senhor levou Paulo a um total desprendimento daquilo que antes lhe parecia importante. “Por causa de Cristo, tudo o que eu considerava como lucro, agora considero como perda . E mais ainda: considero tudo ma perda, diante do bem superior que é o conhecimento do meu Senhor Jesus Cristo. Por causa dele perdi tudo, e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo e estar com ele. E isso, não mais mediante uma justiça minha, vinda da Lei, mas com a justiça que vem através da fé em Cristo, aquela justiça que vem de Deus e se apóia sobre a fé." (Fl 3, 7-9).
Ø Apanhado ou conquistado
Esta imagem também é de Paulo. Ele diz: “Procuro conquistá-lo, assim como eu mesmo fui apanhado (aprisionado) por Ele” (Fl 3,12). E’ como se Deus estivesse atrás de Paulo com um laço na mão e, de repente, o apanhasse pelo pé e o derrubasse no chão.
Queda, cegueira, aborto, laço! Falam da experiência de Paulo e sugerem a ruptura que houve na sua vida. Revelam o fracasso do sistema em que ele vivia. Apareceu o nada de Paulo, de onde vai nascer o tudo de Deus! “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). “Tudo posso naquele que me da a força!”.

Aprofundando
O Card. Martini falando sobre o evento de Damasco disse que surpreende que Paulo descreve pouco este fato tão importante para ele e desenvolvido nas suas cartas. E’ o episodio que no momento da morte certamente Paulo tinha diante dos olhos, mas fala pouco dele. Talvez para Paulo foi mais importante a integração de Damasco na sua vida, como ele viveu e comunicou na sua vida e nos seus escritos.
Damasco foi um ato, um encontro, mas que continuou sendo um processo durante toda a vida de Paulo. O acontecimento de Damasco e o encontro de Paulo com Cristo foi considerado não tanto como uma conversão, mas uma iluminação que faz ver a sua vida em uma nova luz: Por que me persegues? (At 9,4).
Trata-se de uma luz que vem de Alguém que envolve a sua vida, levando-o a mudar em profundidade. È uma luz que o faz cair por terra e o deixa cego.

O que significa envolver?
Podemos imaginar esta cena: Procuremos entrar no intimo de Paulo, com a graça do Espírito. Imaginemos Paulo que caminha com toda segurança para prender os cristãos, não tem a mínima duvida que não tenha razão para agir assim: Para ele os cristãos ameaçavam a ordem, não seguiam os preceitos da Lei (de Moisés) que para Paulo era tudo, uma missão para a salvação do mundo; (A observância da Lei de Moisés era aquela que salvava a pessoa). Vai a Damasco com as cartas de autorização e com a tarefa de reprimir os sequazes da ‘doutrina’ de Jesus. Ele devia defender as tradições dos seus pais, do seu povo, que era o povo escolhido.
Enquanto Paulo caminha com esses pensamentos, o seu animo se agita por todas estas preocupações e responsabilidades que sentia.
Já muito próximo da cidade de Damasco, certamente com o coração em ânsia, pois era uma obra arriscada, podia encontrar resistências, etc. De repente uma luz vinda do céu o golpeia com tanta força que o derruba por terra. Não só, escuta uma voz que o chama pelo nome: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Atônito e atordoado Paulo pergunta: “Quem és tu Senhor!” E escuta: “Eu sou Jesus a quem tu persegues! Agora levanta-te, vai a Damasco e lá te será dito o que deves fazer” (At 9, 4-6).
Parece que tudo volta ao normal, desaparece a luz, a voz, mas desaparece também o seu plano, o seu programa e permanece o homem Paulo, cego, necessitado, frágil, descoberto, confuso, desorientado.
Paulo começa a viver uma experiência de fragilidade, de humildade, agora levanta-te, vai a Damasco e lá te será dito o que deves fazer”. "Saulo se levantou do chão e abriu os olhos, mas não conseguia ver nada. Então o tomaram pela mão e o levaram para Damasco." (At 9, 4-6).
Paulo, sendo um homem culto (era doutor da lei), aceita o fato de ter necessidade dos outros, dos irmãos. Paulo de condutor, agora é conduzido. Ele o chefe da esquadra, que dirigia todos, agora cego, não vê mais nada, sente-se confuso, não entende mais nada. Necessita ser tomado pela mão, levado, conduzido aonde ele não sabe.
De improviso se dá conta que é acolhido, amado como é, independentemente de algum esforço seu, como ele mesmo diz mais tarde: “Enquanto eu ainda era pecador, Cristo morreu por mim”, indica a total gratuidade de Deus.
Paulo sente-se acolhido, amado por Cristo, e também por Ananias e pelos cristãos. O Senhor mandou Ananias a encontrar-se com Paulo: «Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel.
Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome. Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo. No mesmo instante caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado.
Depois tomou alimento e sentiu-se fortalecido. Demorou-se por alguns dias com os discípulos que se achavam em Damasco. Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome. Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo. No mesmo instante caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado. Depois tomou alimento e sentiu-se fortalecido. Demorou-se por alguns dias com os discípulos que se achavam em Damasco.
” (Atos 9,15-19).
Estas palavras e este gesto de Ananias, creio que Saulo nunca mais irá esquecer. Alguém o chama «Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo”.
O encontro com Cristo Ressuscitado, foi sem duvida, a experiência fundante de Paulo: sentir-se amado gratuitamente por Ele! Paulo compreendeu, com a graça do Espírito, que este Jesus Cristo, que lhe falou era o Messias esperado pelo seu povo e não hesitou em aderir a Ele completamente.
O esplendor do Ressuscitado o torna cego: aparece também exteriormente o que constituía a sua realidade interior, a sua cegueira diante da verdade, da luz que é Cristo. E depois o seu sim definitivo a Cristo no batismo, o acolhimento na comunidade de fé (Saulo, meu irmão!) reabre os seus olhos, e o faz ver realmente. Foi necessário tornar-se cego para ver de verdade e ver a Verdade.
Paulo foi transformado não por um pensamento, mas por um evento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca mais poderá duvidar, tanto foi forte a evidencia do evento, deste encontro, que transformou radicalmente a vida de Paulo.

Aconteceu uma mudança, uma virada de perspectiva na sua vida e ele começou a considerar “perda” e “lixo” tudo o que antes constituía para ele o máximo ideal, quase a razão de ser de sua existência (cfr. Fil 3,7-8). Antes ele se considerava justo diante da lei e sentia o dever de perseguir os cristãos, agora percebe que deve recomeçar tudo sua vida mudou, Paulo é um homem novo...
Mesmo não falando em detalhe, Paulo se refere, varias vezes, a este fato importantíssimo, isto é, que também ele è testemunho da ressurreição de Jesus, cuja revelação recebeu diretamente de Jesus, juntamente com a missão de apostolo.
Paulo fala que Cristo apareceu primeiro a Pedro, depois aos Doze... e acrescenta: “E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, e não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que ele me deu não tem sido inútil. Ao contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo". (1 Cor 15,8-10). Paulo faz entender que este é o fundamento do seu apostolado e da sua nova vida. "Por meio de Jesus Cristo recebemos a graça do apostolado" (cfr Rm 1,5); “Não vi por acaso Jesus, Senhor nosso?” (1 Cor 9,1).
O essencial é que o Ressuscitado falou a Paulo, o chamou ao apostolado, fez dele um verdadeiro apostolo, testemunha da ressurreição, com a missão especifica de anunciar o Evangelho aos pagãos, ao mundo grego-romano e para isso devia sofrer muito.
Antes estava preocupado com a realização de si mesmo, da ‘sua justiça’ com a qual queria eliminar com violência os cristãos, agora coloca-se com coragem do lado deles. Não para combater os judeus aos quais pertencia, mas é uma escolha que parte do seu interior. O Paulo que encontramos depois de Damasco é realmente outro.
Talvez o elemento mais típico desta reviravolta está no fato de que antes se sentia o responsável, o diretor ativo, o protagonista da sua vida, era ele que fazia tudo, decidia, se aperfeiçoava com seu empenho pessoal, agora ele confia, se entrega, se deixa conduzir. Confia em Deus e reconhece que foi o próprio Deus a “chamá-lo, separá-lo” desde o seio materno, para “revelar em mim o seu Filho” (Gl 1,15-16). A conversão de Paulo é também uma vocação.
Ele afirma abertamente aos Gálatas: “Deus, porém, me escolheu antes de eu nascer e me chamou por sua graça. Quando ele resolveu revelar em mim o seu Filho, para que eu o anunciasse entre os pagãos” (Gl 1,15-16). (Vanni, L’ebbrezza nello Spirito, p. 24). A experiência central de Paulo
“Vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20)
E’ uma profissão de fé muito pessoal, na qual abre seu coração aos leitores de todos os tempos e revela a qual seja a motivação, a mola propulsora mais intima da sua vida. Tudo o que Paulo faz parte deste centro. A sua fé é a experiência de ser amado por Jesus Cristo de forma toda pessoal; é a consciência do fato que Cristo enfrentou a morte não por alguma coisa de anônimo, mas por amor a ele – de Paulo – e que como Ressuscitado, o ama ainda, isto é, Cristo se doou a Paulo. A sua fé é o ter sido tocado pelo amor de Jesus Cristo, um amor que o confunde até o intimo e o transforma. A sua fé não è uma teoria, mas é o impacto do amor de Deus no seu coração. E esta mesma fé é amor por Jesus Cristo. E sua missão é comunicar a todos esta sua experiência do amor de Cristo.
Paulo intui esta novidade, a prevê mas ainda não a sente totalmente sua, assimilada. Compreende que o Senhor pede uma mudança de vida, mas tem medo que Deus o conduza para onde ele não quer ir... Paulo, depois do primeiro entusiasmo compreende que deve retirar-se para o deserto, assimilar a experiência, preparar-se interiormente para a missão.

A fatiga do caminho

“ Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo. ” (Fl 3,12-14).
Foi Barnabé que fez soar a hora de Deus para Paulo, quando o convida para ir à comunidade de Antioquia, onde havia uma fervorosa comunidade cristã. E’ dali que parte para a primeira viagem apostólica.
Não obstante o encontro-desencontro com Cristo em Damasco, Paulo faz a experiência de que a conversão do coração requer um caminho longo e paciente… é o deixar-se transformar, como o grão de trigo que lentamente se torna espiga. Reconhece que cada dia deve liberar-se dos próprios ídolos e dos temores. Cada dia dispor-se a encontrar Cristo em qualquer avento e nas pessoas, renovando a disponibilidade e a renuncia. Compara a vida como uma corrida no estádio e só vence o corredor que coloca todas as suas energias.
Maturidade, para Paulo, significa estar continuamente em caminho... A luta de Paulo é sustentada pela confiança no amor do Senhor, experimentado no encontro de Damasco. Esta experiência permanece o centro de sua vida, de sua missão.

Em qual direção o Senhor conduz Paulo?
Antes de tudo o Senhor levou Paulo a um total desprendimento daquilo que antes lhe parecia importante. “Mas tudo isso, que para mim eram vantagens, considerei perda por Cristo. Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo e estar com ele. Não com minha justiça, que vem da lei, mas com a justiça que se obtém pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus pela fé. ” (Fl 3, 7-9).

Levou-o à percepção que tudo isso não vale nada diante de Cristo: não em si, mas diante de Cristo. O que aconteceu em Paulo foi uma tal revelação da pessoa de Jesus que lhe fez mudar a idéia que tinha de si mesmo, uma revelação que mudou a sua atitude interior. Esta é a mudança mais difícil de se fazer, aquela de dentro, é possível somente com a ação do Espírito Santo.

b) O Senhor o conduziu em direção da missão: “Mas, quando aprouve àquele que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça, para revelar seu Filho em minha pessoa, a fim de que eu o tornasse conhecido entre os gentios (Gl 1, 15).
O Senhor confia uma missão muito clara a Paulo, através de Ananias: “ Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome. » (Atos 9, 15-16).
E’ chocante para Paulo que as duas coisas venham juntas: ao mesmo tempo que Jesus lhe da a entender que: “errou tudo”, lhe diz: “te confio tudo”, e te envio. E’ o poder de Deus agindo na fragilidade da pessoa humana.
A missão de anunciar e o chamado ao sofrimento, por Cristo, estão ligadas indivisivelmente. O chamado a tornar-se o mestre das gentes é ao mesmo tempo e intrinsecamente um chamado ao sofrimento na comunhão com Cristo, que nos redimiu mediante a sua Paixão. Num mundo onde a mentira é poderosa, a verdade se paga com o sofrimento.
Nós vivemos do Amor que se doa quotidianamente na Eucaristia. Esta fundamenta-se no sacrifício de Jesus que deu sua vida por nós, na cruz, por amor. E’ o amor de Cristo que nos dá a coragem e a força de sofrer com Ele.
A profecia de Ananias se realizou plenamente na vida de Paulo. O seu sofrimento o tornou credível como mestre da verdade, que não buscou o próprio interesse, a própria gloria, a satisfação pessoal, mas se empenhou por Aquele “que nos amou e se entregou por todos nós”.
Na 1Tessalonicenses diz: “Apesar de maltratados e insultados... como sabem, encontramos em nosso Deus a coragem de anunciar a vocês o Evangelho de Deus em meio a forte oposição... Pregamos, não para agradar aos homens, mas a Deus, que sonda os nossos corações. Como vocês sabem, nós nunca usamos de bajulações, nem fomos levados por motivos interesseiros: Deus é testemunha "(1Tess 2, 2-7).
A verdade que tinha experimentado no encontro com o Ressuscitado bem merecia para ele a luta, a perseguição, o sofrimento. Mas o que o motivava no mais profundo, era o ser amado por Jesus Cristo e o desejo de transmitir aos outros este amor. Paulo era um homem tocado por um grande amor, e todo o seu agir e sofrer se explica somente a partir deste centro.

A experiência do ser amado profundamente por Cristo lhe tinha aberto os olhos sobre a verdade da existência humana – aquela experiência abraçava tudo. Paulo era livre como homem amado por Deus que, em virtude de Deus, era capaz de amar com Ele. Este amor é agora a “lei” da sua vida. Ele fala e age movido pela responsabilidade do amor.

Como acontece esta passagem na vida de Paulo?

- Tudo lhe foi doado: TOTAL GRATUIDADE! por graça de Deus; não houve de sua parte esforço, meditação, exercícios espirituais, longas orações, jejuns, etc. Tudo lhe foi dado gratuitamente, para que ele fosse para todos os povos sinal da misericórdia e gratuidade de Deus.
Deus me escolheu, antes de eu nascer e me chamou por sua graça. Quando ele quis revelar em mim o seu Filho, para que eu o anunciasse aos pagãos." (Gl 1, 15). O sujeito não é Paulo, mas é Deus que faz tudo.

Conclusão

De Paulo aprendemos muito: a centrar a vida em Cristo, a rezar continuamente, a doar-nos na missão, a aceitar a fatiga quotidiana, o sofrimento e o insucesso do apostolado, a renuncia a si mesmos, as relações interpessoais, a levar em nós a cruz de Cristo para que as pessoas tenham a vida. Aprendemos a viver na abundancia e na indigência, aprendemos o amor, a sempre recomeçar porque, como o Apóstolo, contamos exclusivamente sobre Aquele que nos da a força: “Tudo posso naquele que me fortalece”, e enche o nosso coração de esperança e de gratidão porque Ele cuida de nós e caminha conosco.
Com o Ano Paulino, certamente está crescendo e fortificando-se em nós o conhecimento de São Paulo, e como conseqüência, o amor por Jesus Cristo, pois não bastam as iniciativas externas, somos convidados a adentrar-nos na profundidade da sua vida e dos seus ensinamentos para dar qualidade e solidez à nossa vida cristã, consagrada e sacerdotal, ao nosso viver comunitário, ao nosso estudo, à nossa doação apostólica.
Paulo nos ensine a apaixonar-nos por Jesus Cristo, pelo Evangelho, pelo povo como ele, nos acompanhe no processo de deixar-nos amar por Jesus Cristo. Nos torne todos e todas apóstolos e centradas plenamente nEle e capazes de continuar doando a nossa vida pelo Senhor, pelo Evangelho, servindo o povo com alegria, gratuidade e amor, porque Ele nos ama.
Ir Ninfa Becker fsp

2 comentários:

Elisabete disse...

Obrigada Ninfa pela profunda reflexão sobre o apóstolo Paulo. Nos confirma a centralidade da vida e missão em Cristo!
Com carinho:
Elisabete

Rita de Cássia disse...

" Paulo faz a experiência de que a conversão do coração requer um caminho longo e paciente… é o deixar-se transformar, como o grão de trigo que lentamente se torna espiga. Reconhece que cada dia deve liberar-se dos próprios ídolos e dos temores. Cada dia dispor-se a encontrar Cristo em qualquer avento e nas pessoas, renovando a disponibilidade e a renuncia".

Essas palavras, proferidas por alguém que decidiu dar a sua vida por amor, como Paulo, é um sinal vivo da presença de Cristo ressuscitado que caminha conosco e espera de nós uma resposta generosa, para colaborar na construção de um mundo melhor.

Obrigada pela reflexão e pelo testemunho!

Rita

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